Biografias
Social 31 - 01Fev2012 18:24:00
Há interrogações partilhadas por muita gente e que são contradições insanáveis.
A fome é o caminho para a saúde?
A pobreza é o caminho para a confiança dos mercados?
A austeridade selvagem numa recessão é o caminho para a revitalização da economia?
O estrangulamento social é o caminho para a paz?
Alguém me dizia que só a ponta da lança a tocar na pele é que dói, depois do incómodo inicial, ela trespassa o corpo quase de forma indolor.
Felizmente nunca experimentei tal sensação de trespassamento, mas o sentido de violação e a revolta interior é tal, que indignação que já conquistou a flor da pele facilmente sai na forma de revolta e tumultos.
Como alguém também dizia, não há nada mais perigoso do que um homem que não tem nada a perder.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2012/02/social-31.html
O mundo está cheio de atos revoltantes e cheio de hipocrisias. A história que hoje aqui publico é revoltante, e um dos principais protagonistas foi aclamado publica e hipocritamente como sendo merecedor de um reconhecimento público do seu trabalho... na área da saúde, imagine-se.
O prémio que recebeu há apenas dois meses está noticiado aqui.
O artigo jornalístico que publicou há duas semanas está publicado aqui.
Algumas reações públicas de organizações cívicas estão publicadas aqui, no jornal para onde o jornalista escreve. Sublinhe-se que este jornal, o Notícias, é o jornal com maior tiragem em Moçambique.
Digo eu, depois de ter tido conhecimento da violação de uma mulher por 17 homens.
O respeito pelas diferenças culturais é nobre e respeitável. O mundo tem a ganhar se incorporar as diferenças culturais e as subliminar no que de melhor têm. Mas os hábitos culturais só se respeitam até ao limite da violação dos direitos humanos, ultrapassado esse limite, não se respeitam, não se compreendem. Julgam-se, condenam-se e punem-se!
Depois de tudo o que li e - felizmente, ainda há esperança - se escreveu em Moçambique sobre este episódio, deixo algumas interrogações publicadas e partilhadas por mim, sobre este caso.
"Como é possível que um caso de violação sexual de uma mulher moçambicana em Pemba por 17 homens, passa pelas mãos da autoridade policial local e aparentemente nada aconteceu?
Como é possível que um crime desta natureza possa ser ?reclassificado? como uma mera ocorrência pelas entidades envolvidas, 17 autores e um mandatário mandados para casa, invocando a desculpa esfarrapada de que envolve religião e tradições, e como tal se justificava?
Como é possível em 2012, que qualquer pessoa, que qualquer entidade, qualquer tradição, qualquer religião, consiga justificar o crime deliberado da violação em massa de uma mulher, como fazendo parte legítima e constituindo ?castigo justificável? , seja em que circunstância for?
Como é possível que a direção e os editores do Notícias de Maputo, deixem passar a limpo nas suas páginas como mera afirmação de uma opinião num sábado, a monstruosidade que é dita quase inexplicavelmente pelo seu cronista de Pemba, que desvaloriza um crime hediondo e efectivamente relega mais do que metade de toda a população de Moçambique para o estatuto de carne para canhão, sujeitas a ?tradições? e ?religiões? que incluem a violação sexual em massa de uma mulher?
Como é possível que, em Moçambique, em 2012, em que, pesem todas as dificuldades e constrangimentos, existem entidades e mecanismos com poderes formais e informais como os Srs. Presidente da República, primeiro-ministro, ministro do Interior, ministro da Justiça, Procuradoria, as polícias, etc ? e este chocante episódio passe em claro sem que acção decisiva, conclusiva e eloquente seja encetada, dizendo aos criminosos e ao mundo que, em Moçambique, a Lei aplica-se e que, em Moçambique, as mulheres são respeitadas e são para serem respeitadas, que, em Moçambique, estes crimes não são tolerados, e que quem os cometer em Moçambique vai pagar um preço muito caro por eles?"
Nota de rodapé: O estado e o governo moçambicano (não é a mesma coisa?) vangloriam-se de ser um dos países africanos com a maior taxa de mulheres em funções governativas. O meu pensamento seguinte e corolário deste facto, não o partilho...
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2012/01/retratos-36.html
Tive a oportunidade de poder visitar um território que ainda se encontra preservado no seu estado natural e com pouquíssima intervenção humana. De facto, o Serengueti e a Cratera de Ngorongoro, na Tanzania, é considerado um dos territórios do mundo onde a paisagem, o relevo, a fauna e a flora não sofreram alterações por acção do homem e se tem mantido inalterada desde há milénios.
As poucas alterações havidas tem sido no setor do turismo, fundamental para a geração de receitas necessárias à conservação. Mas mesmo as alterações turísticas resumem-se a umas picadas abertas para a realização de safaris, umas pequenas pistas de terra batida a servirem de pistas de aviação e uns lodges, poucos, muitíssimo bem integrados e com um impacto mínimo no ambiente.
A área desta reserva natural é de 12.500 quilómetros quadrados, um sétimo do território continental português, onde os poucos habitantes que se atrevem a viver neste território são os homens e as mulheres do povo Maasai.
O povo Maasai é um povo de pastores, cuja especialidade é transumar com o gado, vacas, cabras e ovelhas, naqueles vastíssimos planaltos em harmoniosa convivência com toda a vida selvagem que os circunda. É um povo orgulhoso das suas tradições nómadas e do seu espírito destemido perfeitamente adaptado ao território. Tão bem adaptado que a sua longevidade faz inveja a muitos ocidentais.
A capacidade da adaptação humana ao ambiente é surpreendente, e é com admiração que me explicam que os Maasai conseguem extrair da natureza tudo o que eles precisam para sobreviverem, desde alimentos, água e medicamentos que extraem das plantas autóctones.
Mas o seu orgulho como povo é também bem visível na forma como se apresentam. Altos, magros, altivos, vestidos de forma colorida e harmoniosa e com o corpo ricamente ornamentado com peças artesanais que contrastam elegantemente com a cor da pele.
Um povo que para sobreviver se manteve fiel às suas tradições e que se fechou em si mesmo, nao se cruzando com nenhuma outra tribo do país, a não ser para trocas comerciais. Um povo que me encantou.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2012/01/retratos-35.html
O ser humano sempre teve uma carateristica que, diria, vem desde o berço de Eva. É baseada no principio do menor esforço. Este principio é uma espécie de pau de dois bicos, se por um lado revela inteligência, por outro lado revela uma enorme ingenuidade, para ser simpático no termo.
Vejamos, poderá ser uma atitude inteligente se o Homem arranjar por sua criação métodos que lhe facilitem a vida. A roda é um exemplo paradigmático desta Inteligência. Todavia, este mesmo Homem que revelou sinais de inteligência invulgar, é o mesmo que se deixa cair no caminho do menor esforço baseado na promessa fácil: dá-me um milagre e eu serei teu devoto.
Há pouco tempo, uma empresa norte americana prometia um milagre a troco de muito pouco para cada individuo, mas uma enorme fortuna para eles: o milagre do equilíbrio das energias no nosso corpo, seja lá o que isso for, a troco de uns dólares, dizendo que com aquelas pulseirinhas milagrosas conseguiríamos o melhor de nós próprios porque tínhamos os fluxos energéticos do nosso corpo equilibrados.
E assim, sem mais, prometiam uma espécie de el dorado interior. O negócio cresceu, floresceu, franchisou-se por todo o mundo e a empresa associou-se a causas nobres para ter um ar totalmente filantropo ao olhos da opinião publica. Eles viviam mesmo para o nosso bem estar, arranjavam-nos umas pulseirinhas milagrosas, tratavam de todos os nossos achaques e ainda tratavam das criancinhas com cancro através de donativos altruístas pagos com o dinheiro de quem acredita na promessa fácil.
Mais tarde, em Dezembro do ano passado a empresa Power Balance fez um comunicado refente à pulseira, admitindo que ?as nossas alegações sobre o artigo não têm base científica e que por isso incorremos numa conduta enganosa?. Arriscam a falência com o pedido de indemnizações dos outrora crentes e agora inquisidores.
Não sei o que me faz mais incómodo, se um bando de vendedores de banha da cobra, se um bando de gente acéfala e acrítica que come tudo o que lhes dizem.
Há, no entanto, sinais que me descansam relativamente a toda esta crendice, são os sinais quânticos que nos chegam de toda a parte e que nos equilibram com o universo.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/11/retratos-34.html

A Roménia é um país com uma matriz cultural muito parecida com a matriz portuguesa. As coisas óbvias (pela raiz latina da língua, Romania, terra de Roma) são as palavras, iguais na escrita, mas pronunciadas com uma pronúncia ligeiramente diferente, o suficiente para pensarmos que é outra língua que não a nossa.
Mas as semelhanças não se resumem as estas diferenças, São profundamente culturais e passam pela música popular, pela forma de cantar (houve uma altura em que pensei que ouvia fado), pelos trajes populares, pela gastronomia (os torresmos fritos são entradas nos melhores restaurantes que preservam a tradição gastronómica romena), a cordialidade, a hospitalidade e, inclusive, a boémia.
Apesar destas proximidades culturais, curiosas se pensarmos que a Roménia está, relativamente a nós, nos antípodas da Europa, divergimos nas tradições religiosas. Neste capítulo estão mais próximas das culturas eslavas do que das culturas tradicionalmente latinas. Esta diferença é fundamental na forma como a moral social foi construída. A liberdade sexual quer para o homem quer para a mulher é natural naquela sociedade.
Hiperbolizando, não há homem que não tenha vários filhos de várias mulheres e não há mulher que não tenha tido vários filhos de vários homens. Isto parece uma afirmação de La Palisse, mas a verdade é que não há estigmas sociais para os homens e as mulheres do seu passado mais ou menos promíscuo.
Outro fator curioso é que, embora nada tenham a ver com as culturas mediterrânicas, são mais negras, passe o trocadilho dos mares, são muito parecidas connosco nos valores tradicionais da família, no respeito pelos mais velhos e na preservação das tradições.
Uma das tradições é a religiosa, ortodoxa como já tinha referido. A intensidade religiosa com que a maioria dos romenos vive é mais pesada do que a dos portugueses. Excluindo o cliché de Fátima, os romenos têm uma carga cultural religiosa mais intensa e mais arreigada do que os portugueses. Regra geral, não há romeno (independentemente da faixa etária ou classe social) que passe em frente a uma igreja e não se benza, repetidamente, e com fervor.
A foto que aqui partilho é uma foto tirada num convento, no centro de Bucareste, o equivalente ao Convento de Carmo no centro de Lisboa, mas onde as ordens religiosas e as suas tradições ainda imperam.
É um país que vale a pena conhecer.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/10/ambiencias-58.html
Tive a oportunidade de visitar a Roménia nas férias de Verão do hemisfério norte. Fiquei agradavelmente surpreendido porque imaginava a Roménia como um país terceiromundista, com manifestações de subdesenvolvimento ao nivel da organização urbana, dos serviços prestados, da oferta cultural, da mentalidade das pessoas em geral.
A surpresa veio de vários lados, e destacaria o ambiente urbano das principais cidades romenas, que respiram vitalidade, organização e reabilitação urbana.
A contrastar, este momento tirado no Delta do Danúbio, no norte da Roménia, pertíssimo da Ucrânia, numa zona onde parecia que o tempo havia parado. As aldeias do Delta ficam isoladas pelo gelo e neve durante todo o inverno e as semelhanças com as aldeias isoladas de Portugal profundo são imensas. Aliás, relativamente às semelhanças que a Roménia tem com Portugal será um tema que em breve falarei aqui neste espaço. Para já aqui fica um registo de outros tempos de hoje.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/09/ambiencias-57.html
Fiquei impressionado com a Roménia, e Bucareste em particular. Encontrei uma cidade completamente ocidental onde se integravam os sinais e as marcas da modernidade do século XXI com a esplendida arquitectura do século XIX e XX. Lembrei-me várias vezes da baixa de Paris, pela riqueza arquitetónica, pelas avenidas arejadas, largas e verdejantes.
Em Bucareste respirava-se tranquilidade, com a cidade cheia de jardins e de espaços de lazer, que os romenos aproveitavam num clima de harmonia e paz. Concluí que a Roménia evoluíu imenso nestes últimos anos e está muito distante dos tempos negros de Ceausescu e das suas insanidades faraónicas, como é exemplo este palácio, o seu palácio, que é o maior edifício da Europa e o segundo maior do mundo, só ultrapassado pelo edifício do Pentágono.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/08/ambiencias-56.html
Faz tempo que não venho aqui limpar o pó deste sítio. Desculpem, mas a vida em África nem sempre dá para o que nós queremos. Como alguém dizia, "another fucking day in fucking paradise"
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/07/retratos-33.html
Social 30 - 17Abr2011 00:20:00
Foto de Paulo Nozolino
Os dias que correm em Portugal e na Europa são de tal modo preocupantes que para não deprimirmos definitivamente, temos que nos socorrer dos pensamentos de autores que nos desafiam a continuar. Deixo-vos um poema do Mia Couto, escrito em 2004, mas que não podia ser mais actual.
A versão original é esta:
Demoliram o país de Ahmed.
Erro de construção, justificaram.
Os pilares acentavam numa fé errada.
Debaixo do tecto
se abrigavam famílias,
velhos, meninas, mulheres.
Todos tinham o mesmo nome,
o nome daqueles que não têm nome.
O país ruiu,
ante bombas e tanques,
prova de que não estava bem dimensionado.Os pombos escaparam,
os pobres não.
Que culpa têm os demolidores
de haver tanta gente viva?
Dos que sobraram
não se escutam lamentos.
Os moradores choram numa língua errada.
Entre os escombros,
um braço de menina
ousa a culpa: de que valia ser criança
se não dava uso à infância?
Erro de cálculo na engenharia,
falta de sustentabilidade ambiental,
inviabilidade financeira:
o auditor da comunidade internacional,
encerrou o file no laptop,
e suspirou, aliviado: felizmente,
a maior parte dos países
nunca chegou a existir
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/04/social-32.html
Social 29 - 22Mar2011 20:48:00
Esta foto representa uma tradição, no meu ponto de vista absurda, denominada por mim tratamento de choque. Explico:
A cena passa-se numa pequena localidade no litoral norte de Portugal, chamada S. Bartolomeu do Mar. Esta cena faz parte de uma tradição anual chamada o "banho santo". Sintetitcamente pretende ser uma terapia de choque e que visa tirar os "demónios" das pessoas, em particular das crianças. Vi esta cena repetidamente com crianças. Confesso a minha admiração com gente que parece ser adulta. Basicamente, a tradição consiste em exorcizar os demónios das crianças mergulhando-as violentamente nas águas frias e revoltosas da região de forma a prepará-las para o futuro. A terapia é particularmente aconselhada para casos de gaguez, timidez ou outras "ezes" consideradas fraquezas da personalidade. O efeito, na minha opinião, é que se os "tais demónios" foram eventualmente exorcizados, outros se instalarão permanentemente e serão factores desestruturantes dos individuos sujeitos a tais tratamentos.
Esta terapia, noutro plano, lembra-me a terapia que a classe política ocidental, sublinho ocidental, está a impor aos seus povos para exorcizarem os deficites criados por um capitalismo desenfreado que está a conduzir todo o tecido social ocidental à beira da ruptura.
Pergunto-me, com a preocupação de quem tem descendentes, quais serão as consequências sociais futuras destas terapias.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/03/foto-de-alberto-monteiro-esta-foto.html
Social 28 - 08Mar2011 22:02:00
As últimas semanas mostraram ao mundo que o poder não é perpétuo e que pode cair por vontade popular. Estas revoluções de rua, convocadas na net, mostram que o mundo está em transformação nas formas de mobilização e de organização da contestação.
Não duvido que no futuro surgam teses de doutoramento sobre o impacto das redes sociais na definição da política de uma nação ou outros títulos afins.
Todavia, será com toda a certeza interessante confrontar a eficácia da organização espontânea e popular contra os regimes autoritários ou ditatoriais versus a eficácia dos mesmas em regimes democráticos, onde o "inimigo" é aparentemente invisível e difuso.
De qualquer forma, e independentemente do rosto do "inimigo" ao bem estar dos povos, estas últimas semanas evidenciam que as revoluções de rua são, não só possiveis, como eficazes.
Outra questão, mais séria, que se coloca imediatamente a seguir a uma revolução é saber quem se perfila no poder vindouro: O poder sombra, sempre poderoso, que nunca deu a cara e que aproveita e manipula as jogadas genuinas dos peões para dar xeque, ou o poder espontâneo e genuíno dos povos?
A História mostrou-nos que o caminho faz-se caminhando, a matemática e a física também nos mostraram que todos os caminhos vão, ao fim de algum tempo, dar ao mesmo lugar. Seja como for, o futuro constrói-se, o futuro passa por todos nós, aqui e agora.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/03/social-29.html
Social 27 - 20Fev2011 22:10:00
Dia 12 de Março há uma manifestação dos ?precários? em algumas das principais cidades portuguesas. Esta manifestação, concentração, encontro, seja lá o que for, foi iniciada no facebook. Este tema levanta-me dois comentários: O primeiro sobre o impacto do facebook na vida quotidiana das pessoas (com o exemplo do Egipto), o segundo, mais importante, sobre a capacidade de mobilização das pessoas para reivindicarem direitos legítimos e consagrados na carta dos direitos universais, como o direito ao trabalho e o direito à família.
Comecemos pelo primeiro, o impacto do facebook na vida quotidiana das pessoas:
À primeira análise, o facebook seria mais uma rede social, aparentemente inócua onde cada um vai dizendo e partilhando com mais ou menos seriedade o que vai acontecendo na sua vida: os seus gostos musicais, noticiosos, fotografias de ocasião, enfim, uma panóplia de ferramentas onde se permite partilhar o que se quiser, desde o mais fútil e banal, ao mais sério e fundamental. Neste momento não tenho dúvidas que o facebook é uma ferramenta extremamente poderosa e cheia de potencialidades. Mas, o facto de admitir que esta rede social tem enormes potencialidades não significa que ela seja efectivamente poderosa, sobretudo num país como Portugal.
Esta afirmação provocatória remete-me para a segunda questão enunciada acima, sobre a capacidade de mobilização das pessoas, via facebook, ou outra via qualquer. Não considero o povo português um povo verdadeiramente reivindicativo. Mais, considero o povo português um povo passivo, que acha que o futuro está condenado ao que for sem que para isso mexa uma palha que não seja a língua para dizer mal. É um povo que provavelmente tem razões históricas para ser assim, passivo, porque sempre delegou aos outros a decisão do seu futuro e cedo percebeu que as organizações adulteram o seu pensamento genuinamente libertador. Vejam-se os resultados das últimas eleições presidenciais, a crescente desmotivação pelos movimentos políticos organizados, que, aos seus olhos se organizam em seu próprio benefício. Vejam-se as grandes convulsões sociais que existiram e que foram sempre ?a posteriori? ratificadas pelo povo mas que nunca foi o povo que as verdadeiramente despoletou.
Porque vivo agora num país onde os direitos humanos são uma miragem, porque sou cada vez mais sensível ao drama da precariedade e do mundo que a humanidade está a construir nesta premissa, vejamos o que irá acontecer no dia 12 de Março, se uma manifestação de intenções imberbe ou uma tomada de posição mais séria e um aviso à navegação. Os mais esclarecidos poderão pensar que não há nada a fazer, Berlusconi mantém-se legitimamente no poder há anos. Um símbolo da decadência e liberalização selvática de todos os valores da sociedade ocidental.
Neste momento não tenho dúvidas, o poder que cada um de nós tem, por mais ínfimo que pensemos que seja, é infinitamente maior do que possamos imaginar, se aplicado em larga escala. Só temos que o aplicar mesmo em larga escala e não ficarmos confinados à nossa pequena realidade individual. Os problemas são comuns, transnacionais. Mobilizemo-nos e façamos como alguém há muito tempo declarou: ?Ajo como se o meu acto fizesse a diferença?.
Será concerteza um parto com dor, mas não tenhamos medo da dor! Como biologicamente se diz e é consensual, a dor é a defesa do nosso corpo a fenómenos estranhos. Façamos da dor o caminho para uma sociedade menos egoísta e mais solidária, via facebook ou por outra via qualquer. O que é inconsequente é o silêncio e frustração armazenados em cada um de nós.
Caminhemos pedra sobre pedra, passo a passo, rumo à mudança.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/02/social-27.html
Foto de Graça Loureiro
Hoje faço um brinde a uma pessoa que passou fugazmente pela minha vida, mas que a marcou profundamente. Mary, uma italo-indiana atrevida. Um beijo para ti, cupido.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/02/retratos-32.html
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| António de Oliveira Salazar - 1962 |
O espólio fotográfico do Eduardo Gageiro é notável, e há fotografias que ele fez que me deixam mudo perante a riqueza de conteúdo que contêm. Esta é uma foto dessas, reveladora de uma perspicácia invulgar. Dizia o Nozolino, outro grande fotógrafo cujo trabalho admiro, que o olhar é como um lápis, com a idade vai-se afiando. É certo que em 1962 Gageiro era ainda um jovem fotojornalista, mas o seu olhar sempre foi especial e foi essa capacidade que o tornou num excelente fotojornalista e captador de imagens.
Nesta foto, vê-se um homem orgulhosamente só, contemplando o oceano, provavelmente pensando no seu delirante sonho colonialista e que conduziu Portugal a uma guerra absurda e, na época, sem sentido e fortemente condenada do ponto de vista internacional. Um homem só, um poder só, com uma máquina musculada por detrás que reprimia quem se lhe opusesse.
Que personagem e que cenário escolheria Gageiro nos dias de hoje para retratar o poder em Portugal? Duvido que fosse Cavaco Silva na sua casa do Algarve. Duvido também que fosse José Sócrates a sair da Universidade com o seu diploma, ou a sair de um palácio no Qatar com um cheque na mão. Provavelmente escolheria não um, mas um monte de personagens, os das grandes empresas de consultoria, sem rosto, que legislam a seu belo prazer, que misturam sabiamente a política e o capital, porque afinal, o verdadeiro poder hoje não tem rosto.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/01/eduardo-gageiro-retrato-com-historia.html
Era uma vez um país rico, tão rico que acabou de aprovar uma legislação sobre o regime de aposentação da segurança social? que faz corar os países ricos ocidentais. Vejam-se sumariamente quatro das condições de reforma aprovadas recentemente:
1 - Tem direito à reforma por incapacidade para o trabalho qualquer cidadão que tenha descontado pelo menos15 anos para a segurança social.
2 - Tem direito à reforma qualquer cidadão que tenha trabalhado 35 anos de serviço efectivo.
3 - O valor da reforma corresponde a 100% do último salário.
4 - Em caso de morte do reformado 75% do valor da reforma é distribuida pelos herdeiros (mulher e filhos maiores) em partes iguais [curiosamente este artigo não tem limite temporal]
Depois de ter visto estas o diploma legal pensei, caramba, este país nada em dinheiro!
No final concluí que afinal, o país é dos mais pobres do mundo, e que metade do orçamento do estado é financiado por ajuda externa. Como justificarão os países doadores aos seus contribuintes que financiam neste país condições que há muito revogaram e alteraram?
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2011/01/retratos-32.html
- 01Dez2010 13:11:00
Sim, eu sei que este blog foi criado para divulgar fotografia portuguesa e, claro, a preto e branco. Mas o mundo anda com uma lógica tão absurda que importa quebrar as regras e as tradições. Afinal, o que temos a perder em romper com o que nos querem estabelecer?
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/12/cartoons-do-quino-sim-eu-sei-que-este.html
Social 26 - 24Nov2010 20:52:00
Foto de Paulo Nozolino
Um pouco por toda a Europa existe uma vaga de protesto da população que está cansada e desesperada com a situação de crise generalizada que se vive no mundo e nos seus países em particular. Portugal não foge à regra e hoje foi dia de protesto, de contestação, de greve geral.
Há quem diga que isto é orquestração dos malditos sindicatos, há quem diga que é seguidismo dos que não querem trabalhar, há quem diga e desdiga uma série infindável e sempre questionável de argumentos.
O que parece inquestionável é o descalabro da economia capitalista. E há muitos reputados intelectuais sérios e honestos por esse mundo fora, de reputadíssimas universidades, que o afirmam há muito tempo.
Como tributo a esta insatisfação geral que se vive, deixo aqui mais uma crónica sagaz e corrosiva, escrita há menos de um mês por Mia Couto, que a escreveu a pensar especialmente em Moçambique, mas que não se esgota nem em Moçambique, nem em Portugal. Sobre os homens-sombra.
"Existe o ?Yes man?. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
O May be man vive do ?talvez?. Em português, dever-se-ia chamar de ?talvezeiro?. Devia tomar decisões. Não toma. Sim plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um ?talvez? não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.
A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no ?yes?. É que o ?may be? é, ao mesmo tempo, um ?may be not?. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.
Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se ?comissão?. Há quem lhe chame de ?luvas?. Os mais pequenos chamam-lhe de ?gasosa?. Vivemos uma na ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De ?business?, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o ?talvezeiro? é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua dra-se no combate contra a pobreza.
Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.
O May be man entendeu mal a máxima cristã de ?amar o próximo?. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o ?próximo?. É por isso que, para a lógica do ?talvezeiro? é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.
O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup to: em nome da lei, assalta o cidadão.
Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele e sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau tela, os do chefe do chefe.
O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.
Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.
O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de- conta. Para um país a sério não serve."
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/11/social-35.html
Já tive a sorte de poder visitar alguns lugares da Terra. Confesso que me falta quase tudo para ver, mas das experiências de viagens que colectei ao longo da vida, houve uma que me surpreendeu muito mais do que esperava. A Namíbia.
A Namíbia é um país que do ponto de vista paisagístico é único. Tem paisagens surreais onde o deserto e os terrenos áridos se conjugam com cores e neblina dando formas e ambientes que não parecem deste mundo. Mas para além da fantástica beleza do país, há a destacar também a organização e as infra-estruturas.
É um país imenso, com uma rede de estradas asfaltadas e de terra batida que faz inveja a todos os países africanos. Rede de distribuição de energia eléctrica por todo o país. As cidades limpas, sem confusão de tráfico, com variadíssimos pontos de recolha de lixo diferenciado para reciclagem.
A polícia e todas as autoridades tratam as pessoas com amabilidade, pedagogia e respeito. Nas lojas, a organização é o lema, o bom tratamento ao cliente é o mote.
Nos lugares turísticos, reservas naturais, hotéis e lodges o requinte impera. O serviço é de altíssima qualidade. Nas ruas, respira-se tranquilidade e segurança.
Do ponto de vista da organização política, as várias etnias que compõem o país são vistas e reconhecidas como tribos com direito ao reconhecimento da língua própria nas escolas e o respeito pela cultura, religião e tradições. O mais curioso é que as ex-etnias colonizadoras, a alemã e a sul-africana bóer, são reconhecidas politicamente como tribos e tratadas em pé de igualdade às demais tribos autóctones.
É um país africano que não parece africano, dados os elevados padrões de organização e qualidade que apresenta.
Em contraste, na viagem de regresso a Moçambique, depois de várias horas de atraso no aeroporto à espera do avião das Linhas Aéreas Moçambicanas, sem qualquer explicação ou satisfação da companhia, chegamos ao aeroporto de Maputo, fora de horas, cansados de tantas tempo de espera. Chegámos ao balcão da migração para apresentação dos passaportes e, não há ninguém. Com muita calma lá começam a chegar funcionários. Dispõem-se em dois balcões, sem haver separação para residentes, turistas ou diplomatas. Depois de mais um tempo infinito de espera para ter o carimbo de entrada no país, um funcionário pede para revistar as malas.
Digo-lhe, de uma forma irritada, que depois de mais de meio-dia de atraso, e aquela hora tardia, aquele procedimento poderia ser evitado. Começo a abrir a mala visivelmente mal-disposto. O funcionário olha para mim e diz-me: ?dá lá refresco e podes passar?.
A primeira autoridade pública deste país revela-se imediatamente: isto é um país de extorsão e abuso. Claro que não paguei nada e fui-me embora, furioso.
Moçambique, um país rico do ponto de vista dos recursos naturais, com esta cultura do estou a pedir refresco, leia-se corrupção e extorsão, não vai longe e nunca poderá competir com países organizados como a Namíbia e nunca estará nos roteiros turísticos do mundo. A corrupção e a ineficiência dos serviços para instituir a corrupção são uns dos vários cancros deste país.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/11/ambiencias.html
20-10-2010 - 04Nov2010 17:26:00
Depois da declaração, da festa, do brinde, das canções e da brincadeira, partiu-se à descoberta de uma nova fase da vida com um novo mundo como cenário. A Namíbia.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/11/20-10-2010.html
Social 25 - 30Set2010 21:08:00
As outras nações de Moçambique? (texto de Mia Couto)1 - Os pneus ardendo nas estradas de Maputo e Matola não obrigaram apenas a parar o trânsito daquelas cidades. Paradoxalmente, esse bloqueio à normalidade abriu acesso a outras estradas que pareciam bloqueadas em todo o país. Os motins obrigaram a repensarmo-nos como país, como entidade que não pode ser dirigida por um pensamento único. As manifestações tornaram visível um outro Moçambique que parecia esquecido e longe dessa ?pátria amada? tornada em chavão oficial. No auge da crise, a Frelimo retomou o seu velho método de contacto directo com as bases. Brigadas ?saíram? para os bairros e regressaram alarmadas. O sentimento que encontraram nas bases estava distante dos relatórios oficiais que, à força de serem repetidos, pareciam ser a verdade única e total.
Afinal, a zanga não era apenas a dos que saíram à rua. Os distúrbios eram a expressão desordenada de uma insatisfação bem mais generalizada e profunda. Não era obra dos ?inimigos?. Se calhar, era obra dos que parecem militar nas próprias fileiras. Dos que assumem que fazer política é levar e trazer relatórios falseados para agradar aos chefes. A insatisfação dos mais pobres não tinha apenas a ver com preços de produtos. Essa revolta não era, afinal, apenas dos que vivem na pobreza absoluta. Outras pobrezas fizeram fumo no primeiro de Setembro.
A dimensão desse sentimento popular foi vital para ditar o volte-face do Governo. Medidas que 48 horas antes haviam sido tidas como ?irreversíveis? pelo porta-voz do Conselho de Ministros foram, afinal, revogadas. De forma pouco habitual, o poder vinha dizer que uma parte do problema estava também dentro da própria governação. Esta aceitação da necessidade de uma nova ética na relação com os outros é talvez mais importante que as anunciadas medidas económicas. Ao assumir publicamente que devem dar o exemplo no apertar do cinto, os dirigentes da Frelimo tornam-se mais próximos dessa vanguarda moral que, antes nos ensinou que o ?responsável político é o primeiro no sacrifício e o último nos privilégios?.
Os eventos de Setembro podem indiciar que a Frelimo pretende reaproximar da própria Frelimo. Chama-se o que se quiser ao volte face que o Conselho de Ministros. Eu acho que essa mudança foi corajosa, vital e indiciadora de outras mudanças. Essa mudança pode salvar todas as nações da nação moçambicana. E pode salvar a própria Frelimo como força condutora dos destinos de uma pátria que é a única que, nós, moçambicanos temos.
2- Este acordar para uma realidade não tocou apenas os dirigentes de partidos. No dia dos tumultos, muitos cidadãos de Maputo foram sacudidos pela surpresa. Morando em bairros ricos, esses cidadãos há muito que confundiam a nação com a reduzida geografia da cidade por onde circulam. O lugar dos pobres era, para eles, um cenário longínquo, uma fachada apenas visível da janela das viaturas com que, apressadamente, atravessam as chamadas ?periferias?. Aos poucos, a nação destes compatriotas se resumiu ao circuito das grandes avenidas e dos quarteirões privilegiados do cimento. É fácil amar uma pátria assim: mais ou menos limpa, mais ou menos servida, mais ou menos cosmopolita. Para os cidadãos ?deste? Moçambique, os motins surgiram como uma espécie de invasão. Os desordeiros estavam avançando sobre a sua ?nação?. Xilunguíne estava sendo ameaçada pelos bárbaros suburbanos.De repente, os habitantes da nação cimentada acordaram para a existência de uma outra nação maior. De súbito, lembraram-se que havia uma outra cidade fora da cidade, que havia uma pobreza que não morava apenas nos ?distritos?.O fumo dos pneus teve o efeito inverso do que se poderia prever: clareou céus e rasgou horizontes. Os pobres deixaram de ser apenas assunto dos workshops. Os pobres saltaram dos seminários em luxuosos hotéis para a realidade do dia-a-dia. Os pobres podem fazer parar o país dos outros. Mesmo que para isso acabem ficando mais pobres. Para quem tem pouco ?amanhã? esse esbanjar de futuro valia a pena.Neste sentido, no dia primeiro de Setembro Moçambique deu uma cambalhota. Dito de outro modo, a percepção que um certo Moçambique tem de si mesmo foi colocada de pernas para o ar. A periferia virou o centro. A pobreza falou por si mesma, com seus recursos pobres, com a sua esperança empobrecida. As cicatrizes dos pneus em chamas não sobreviverá nas estradas da capital.Espero que as lições desse transbordar sobrevivam dentro de nós como um alerta que algo precisa mudar nas duas nações.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/09/social-26.html
Pele 31 - 27Set2010 15:19:00
Há luz sem lume aceso
Mas sem amar o calor
À flor de um fogo preso
À luz do meu claro amor
Há madressilvas aos pés
E águas lavam o rosto
Dedos que tens em respeito
Oh, meu amante deposto
Não foram poemas nem rosas
Que colheste no meu colo
Foram cardos, foram prosas
Arrancadas do meu solo
Porque tu ainda me queres
O amor que ainda fazemos
Dá-me um sinal se puderes
Sejamos amantes supremos
Será sempre a subir
Ao cimo de ti
Só para te sentir
Será no alto de mim
Que um corpo só
Exalta o seu fim...
Lembro-me perfeitamente da edição desde disco no início dos anos oitenta, com música do Ricardo Camacho dos Sétima Legião, letra de Miguel Esteves Cardoso e a interpretação da, na altura, jovem Manuela Moura Guedes. Pode ser escutado aqui Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/09/foto-de-mariana-castro-ha-luz-sem-lume.html
Um pouco de cor no Blografias é uma excepção mas não fica mal, sobretudo se vem de um sítio como este, recheado de gente irrequieta e irreverente onde a fotografia reflete o nome do espaço: alternativa.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/09/sugestao-12.html

Falta exactamente um mês para concretizar um pequeno sonho: pisar as dunas do deserto da Namíbia. Arranjei a companhia certa e lá, celebraremos o passado e o futuro.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/09/foto-de-nana-sousa-dias-falta.html
Social 24 - 16Set2010 11:14:00
A recente crise que Maputo viveu teve origem no enorme descontentamento da população. Os elevados níveis de pobreza aliados ao disparo dos preços de bens essenciais despoletaram a revolta. A revolta foi apelidada pelos responsáveis políticos como vandalismo e as manifestações consideradas ilegais.
Importa esclarecer que as manifestações seriam sempre ilegais porque não foram convocadas por nenhuma associação legalmente constituída, mas sim por um movimento espontâneo e popular que surgiu em mensagens sms.
Importa ainda esclarecer que cerca de 90% da população é formalmente desempregada e vive de biscates e que cerca de 45% da população é menor.
Importa também esclarecer que a violência vivida naqueles dias resultou em grande parte da forte e brutal repressão policial que cumpria ordens. De facto, dias depois houve testemunhos de polícias que confessaram que eles também queriam estar no outro lado da barricada porque eles também passam mal, apenas cumpriam ordens superiores.
É necessário ainda referir que o salário mínimo ao câmbio actual é de cerca de 50 euros. Um polícia em início de carreira tem este salário e um polícia com 10 anos de serviço ganha menos de 100 euros.
Os factores que contribuiram para esta revolta foi o aumento desmesurado do custo de vida. No último ano, o metical desvalorizou face ao euro, ao dólar e ao rand ( moeda fundamental em Moçambique já que a maioria das importações vêm da África do Sul e Moçambique importa quase tudos os alimentos ) cerca de 40%. Este facto aliado ao aumento dos preços a nível internacional tornou a situação incomportável para a maioria da população.
O governo, depois de dias de silêncio e repressão ( os serviços de mensagens dos telemóveis foram bloqueados durante 3 dias pelas operadoras ) veio depois anunciar que subsidiaria o preço dos combustíveis, da energia, água, arroz e do pão. Estas medidas acalmaram a população mas, imagino que são a prazo insustentáveis para um país tão pobre como Moçambique cujo Orçamento de Estado é subsidiado por doadores internacionais em cerca de 50%. Assim, prevejo que o futuro será instável e novos protestos se farão ouvir e sentir. Quando a miséria é extrema e a fome aperta, a linha de separação entre o protesto e a violência é demasiado ténue. É a revolta dos que cairam em desgraça.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/09/social-24.html