Biografias

Retratos 31 - 23Mai2010 22:37:00

Foto de Francisco Máximo
We will act as if what we do will make a difference. There is nothing you and I won't do.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/retratos-31.html

Social 22 - 12Mai2010 14:43:00

Foto de Catarina Cruz


Partilho convosco uma notícia acabada de sair sobre um estudo apresentado ontem, no Porto, no 10º Congresso da Federação Europeia de Sexologia:

"Metade das mulheres portuguesas masturbou-se regularmente na adolescência e cerca de um terço continua a fazê-lo para lidar com o stresse. Entre as que têm uma relação estável, 55% revelam-se altamente satisfeitas com a sua vida sexual."

Estas conclusões resultam de duas investigações que visavam aprofundar o conhecimento sobre a sexualidade das portuguesas. O estudo conduzido por Sandra Vilarinho, que envolveu 497 mulheres em relações estáveis, concluiu que mais de metade se sente muito satisfeita no que diz respeito ao prazer sexual, sendo o bem-estar na relação conjugal determinante para 25% das inquiridas. Seis em cada dez tiveram desejo ou interesse sexual "quase sempre" ao longo do mês anterior ao inquérito.


O que mais me satisfez, foi que a autora concluiu que as mulheres sexualmente mais satisfeitas revelam maior autoconfiança, alegria e serenidade.
Sugiro que seja um estudo a apresentar ao Papa, aproveitando a sua passagem pelo Porto, para ver se acaba a recriminação católica à sexualidade. Err... esqueci-me que a história mostra que a igreja e estudos científicos, são como dois líquidos imiscíveis. No passado, até davam chama, na fogueira.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/foto-de-catarina-cruz-partilho-convosco.html

Social 21 - 09Mai2010 23:16:00


Partilho aqui um texto do Mia Couto, a propósito do desencanto com o país que o fez nascer:


Havia um país em que tudo funcionava na base dos dez por cento.
Era o médico: - Mandas-me esse doente e eu pago-te 10%.

Era a criança de rua para um candidato a criança de rua: - Deixo-te guardar carros na minha área e dás-me 10 por cento.

Era o chefe: - Deixo a vossa empresa ganhar o concurso e vocês retribuem com 10 por cento.

Era o polícia: - Estou a telefonar para lembrar aquela multa que perdoei... recorde-se do combinado.

Era o director: - Coloquei-te no projecto como técnico... já sabes, não é?

Era o outro chefe em sussurro para o empresário estrangeiro: - Podem investir no nosso país mas... há comissões, é normal...

Tudo parecia correr bem, no país dos dez por cento. Na aparência, pelo menos... As pessoas trabalhavam a dez por cento, sonhavam nessa percentagem, viviam nessa escassa perspectiva. Tudo a dez por cento.

Mesmo a esperança a ser investida no futuro ocupava apenas uma fracção do coração.

Certo dia, porém, alguém pensou tomar uma iniciativa a 100 por cento. Meu dito, meu feito. O homem arregaçou as mangas e trabalhou.

E logo os amigos, familiares e colegas desataram a rir. Que o esforço seria em vão. Porque, nesse país, o construir era entendido como "comer". E ninguém pode "comer" sozinho. Viria o fiscal e pediria 10 por cento. Viria o camarário e pediria 10% para as licenças. Viria o ministerial e exigiria 10 por cento. Ou mais.

No final, ele acabaria por ficar com menos de 10 por cento das ideias, e do esforço aplicado resultaria quase nada. Que no país dos dez por cento o melhor é não fazer. O melhor é não construir, nem trabalhar. O que é bom e saudável é parasitar os que querem fazer. Sobretudo, os que querem fazer a cem por cento.

E assim, embora aparentando toda a normalidade, o país a dez por cento padecia de uma doença fatal. O problema é que um país a dez por cento só pode ser dez por cento país!


O terceiro mundo está muito mais perto de alguns europeus do que eles próprios imaginam.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/social-20.html

Social 20 - 02Mai2010 22:16:00

Foto de Nuno Sousa Foto de Nuno Sousa

O papa prepara-se para visitar Portugal. A acompanhá-lo, toda a negritude que há muito se suspeitava: o "amor" pelas crianças. A cobardia tem que ter limites e não há perdão possível para estes crimes perpretados por gente execrável que se esconde atrás de uma batina.
Não pode haver perdão também para as hierarquias, cúmplices, que com o seu silêncio activo ou passivo perpétuaram a pedofilia. Shame on you!!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/social-19.html

Social 19 - 25Abr2010 13:30:00


Já todos sabemos que África é um continente recheado de desigualdades, de abusos, tiranias e atropelos aos direitos humanos. No fundo, a exportação cristalizada do pior da sociedade ocidental. Algumas diferenças profundas porém, existem ainda vincadamente nos dias de hoje e que se prendem com crenças e surpestições.



Há dias, em conversa com um amigo moçambicano, de uma geração mais jovem e informada, que trabalha no sector da saúde, dizia-me, para meu espanto e arrepio, que o número de crianças violadas e infectadas com doenças sexualmente transmissíveis que entram todos os dias no Hospital Central de Maputo, é assustador. E explicou-me as causas que dão origem a tão desumana realidade: a crença irracional e ignorante.





Estando eu fora deste contexto, pedi mais explicações. Explicou-me que, uma vez que o número de adultos infectados por sida e por um sem número de doenças venéreas é tão elevado e leva a maioria dos infectados a um destino quase certo, a morte, que acreditam que a única hipótese de salvação e cura é passarem as doenças às crianças, que são puras e, segundo eles, imunes. Sabia de uma série de crenças absurdas que por aqui proliferam, mas não fazia ideia que a realidade descesse a este ponto horrorosamente absurdo.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/04/social-19.html

Ambiências 54 - 14Abr2010 22:32:00


No príncipio deste ano fiz uma viagem por Moçambique para um destino há muito desejado: A Ilha de Moçambique, a primeira capital deste país. Depois do voo até Nampula, um taxista expedito diz-me que aquela hora (10:00 da manhã) já não haviam chapas (transporte público, vulgo autocarro) para a ilha. Perante a admiração e as queixas lá começou a fazer uns telefonemas. Ao terceiro, parecia ter descoberto uma alternativa de transporte. Um amigo tinha um chapa e, disse, estava com sorte pois estava quase a partir para a ilha. Lá nos apressámos e uns minutos depois encontrámos o tal chapa, cheio de gente, quase a iniciar a viagem.

Combinámos o preço, e demos início à viagem para o destino há tanto esperado. O chapa roncava no esforço que fazia a cada metro que ganhava à estrada e, num ritmo demasiado rápido para o degradado estado geral daquela espécie de viatura, lá nos fomos aproximando do destino.

Cerca de duas a três horas depois, numa longa subida que atravessava uma aldeia, Monapo, o chapa começou a gaguejar. Gaguejou, gaguejou, até que o motorista decidiu parar. De imediato, a tripulação (motorista, cobrador e ajudante) começaram a movimentar-se com uma estratégia que parecia já muitas vezes implementada. Mandaram sair os passageiros, levantaram os bancos da frente deixando um motor cansado e cheio de arames a segurarem as mais variadas peças e iniciaram um trabalho que aparentava ser já muito familiar. É bom sinal, pensei, é uma avaria frequente e para a qual a solução é sobejamente conhecida e experimentada.

Enquanto decorriam os trabalhos de reanimação do chapa, olhei para as pessoas que haviam saído e não deixei de me surpreender pela multidão de passageiros que começaram a procurar lugares à sombra, para iniciarem a espera. Toda aquela situação era encarada com enorme naturalidade e não havia lugar a nenhum protesto.





Sem nada para fazer, passeei pela aldeia que entretanto tinha caído em peso à volta do chapa para gozar a novidade do dia. A excitação era geral e aumentou quando viram que no chapa vinham uns molungos (brancos no dialecto changana). As crianças pediam para serem fotografadas, os adultos pediam dinheiro, enfim, um cenário quotidiano que há muito me habituei.
Entretanto, o motorista-mecânico cortava tampas de garrafinhas de água para improvisar anilhas que eram necessárias colocar não sei bem aonde. Após sucessivas tentativas de reanimação, o motorista-mecãnico declarou o estado de coma do chapa e percebi que a viagem iria acabar naquele lugar no meio de nada. A nossa última referência do trajecto era um cruzamento lá bem atrás que se chamava de "quatro caminhos". Sem sabermos bem o que fazer, decidimos tirar os troleis do tejadilho e começámos a andar a pé, em direcção aos quatro caminhos, à procura de algum veículo com motor que nos pudesse dar boleia até à ilha. A ansiedade começava a pairar nos espíritos porque fazia mais de uma hora que nenhum motor havia passado e a noite aproximava-se a passos largos.

E foi nesse passo que os molungos começaram a andar, puxando troleis, à procura de qualquer coisa que nos fizesse chegar ao destino. Os locais, apreciavam o episódio com uma satisfação crescente perguntando-nos onde íamos. Aos quatro caminhos respondiamos nós sem fazer bem ideia da caminhada que nos esperava.

Finalmente, apareceu uma camioneta que imediatamente parou e viu a oportunidade de fazer uns meticais extras num transporte de molungos. Mais uma vez, negociou-se o preço, desta vez inflaccionado devido às circunstâncias, e lá embarcámos junto das mais variadas mercadorias na caixa da camioneta, a caminho da ilha.

Chegámos ao pôr-do-Sol. À nossa frente uma extensa e fina ponte que deixava circular apenas uma viatura. Uns quilómetros ao fundo, um pequeno pedaço de terra que começava a ganhar definição: A Ilha de Moçambique.



Chegádos à ilha, rapidamente percebemos que esta está dividida em duas zonas, a zona colonial, onde os vestígios de construção colonial estão fortemente presentes e uma outra zona, densamente povoada pelos habitantes locais e onde as palhotas e barracas de tectos de zinco abundam em ruelas sujas e estreitas.

A zona colonial apresenta imensas zonas com casas degradadas, ocupadas por famílias numerosas. A espaços veêm-se casas reabilitadas que deixam adivinhar interiores de tectos altos e divisões espaçosas. As casas aqui tem uma semelhança enorme com as casas senhoriais alentejanas, paredes grossas, caiadas de branco ou em tons ocres, com as faixas de tinta azul ou amarela que rodeiam as janelas e as portas.


Na praça principal, que rodeia a antiga casa do governador, hoje um museu em reabilitação paga por avultados fundos da cooperação portuguesa, existe o típico largo do coreto, sobranceiro ao mar que se encontra a poucos metros.

A ilha está recheada de marcas arquitéctónicas tipicamente portuguesas, igrejas, casas e ruas com marcas do sul de Portugal, o Alentejo. Até os azulejos dos interiores das cozinhas são iguais aos azulejos das casas senhoriais alentejanas com padrões geométricos que criam ilusões ópticas. Os mesmos que vi na minha infância quando ia a Évora passar os natais.




Algumas ruas, onde existem lojas e restaurantes já reabilitados, são ladeadas por arcadas que fazem sombra e tentam dar um ar mais fresco de proteção do Sol inclemente e do calor abrasador e húmido que se faz sentir no Verão. Mais uma vez me parece estar a reviver momentos passados em Évora.




Noutra zona, no cimo de um terraço de uma casa magnífica, agora transformada num simpático e acolhedor restaurante italiano, avista-se numa das ruas principais uma construção imponente mas infelizmente muito degradada: o hospital da Ilha. O aspecto interior faz temer pela saúde dos habitantes da ilha.






Calcorreando as ruelas da ilha cruzamo-nos com uma população maioritariamente muculmana, simpática e hospitaleira. Numa ruela descubro uma madrassa, uma escola muçulmana, onde os meninos desde pequenos aprendem o islão.




A professora convida-me a entrar, explica-me que trabalha com um grupo numeroso de crianças orfãs e assisto a uma demonstação dos meninos. Começam a recitar de cor os textos do Alcorão. Não percebo uma palavra, mas percebo que falam fluentemente, sinal de que a lição está bem aprendida.






E passeando naquelas ruas rapidamente se percebe que o ritmo do tempo é vagaroso, as pessoas pouco têm que fazer e matam o tempo esperando que qualquer coisa surja, qualquer coisa lhes dê motivos para se ocuparem. Parecem de facto ancorados num tempo que flui lentamente, sem sonhos e sem grandes novidades que os animem.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/04/ambiencias-54.html

Social 18 - 14Fev2010 17:28:00


Foto de Francisco Máximo



Quero partilhar uma entrevista que um psiquiatra francês, Christophe Dejours, deu recentemente à comunicação social portuguesa, nomeadamente oa Jornal Público. É uma entrevista um pouco longa mas extremamente acutilante e que deixa pistas para a reflexão do modelo social de trabalho vigente e as suas consequências.


Nos últimos anos, três ferramentas de gestão estiveram na base de uma transformação radical da maneira como trabalhamos: a avaliação individual do desempenho, a exigência de ?qualidade total? e o outsourcing. O fenómeno gerou doenças mentais ligadas ao trabalho. Christophe Dejours, especialista na matéria, desmonta a espiral de solidão e de desespero que pode levar ao suicídio.

Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção ? uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa, onde, de gravata amarela, cabeleira ?à Beethoven? e olhos risonhos a espreitar por detrás de pequenos óculos de massa redondos, falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal. Não há ?trabalho vivo? sem sofrimento, sem afecto, sem envolvimento pessoal, explicou. É o sofrimento que mobiliza a inteligência e guia a intuição no trabalho, que permite chegar à solução que se procura.

Claro que no outro extremo da escala, nas condições de injustiça ou de assédio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, há um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, à depressão. No seu último livro, publicado há uns meses em França e intitulado Suicide et Travail: Que Faire? , Dejours aborda especificamente a questão do suicídio no trabalho, que se tornou muito mediática com a vaga de suicídios que se verificou recentemente na France Télécom.
Depois da conferência, o médico e cientista falou sobre as causas laborais desses gestos extremos, trágicos e irreversíveis. Mais geralmente, explicou-nos como a destruição pelos gestores dos elos sociais no trabalho nos fragiliza a todos perante a doença mental.

O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo?
O que é muito novo é a emergência de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E não só em França ? as primeiras investigações foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alemães. É um fenómeno que atinge todos os países ocidentais. O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar ? mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem.


Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias ? nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.

No passado, não havia suicídios ligados ao trabalho na indústria. Eram os agricultores que se suicidavam por causa do trabalho ? os assalariados agrícolas e os pequenos proprietários cuja actividade tinha sido destruída pela concorrência das grandes explorações. Ainda há suicídios no mundo agrícola.

O que é que mudou nas empresas?
A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada ?qualidade total?; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais ? e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: ?O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.?

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí ? a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua ? acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe?

Mas o assédio no trabalho é novo?

Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador ? é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição ? a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco. Aí é que se torna difícil sair do poço, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente. Muitas vezes, a empresa pediu-lhes sacrifícios importantes, em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo de trabalho, de objectivos a atingir. E até lhes pode ter pedido (o que é algo de relativamente novo) para fazerem coisas que vão contra a sua ética de trabalho, que moralmente desaprovam.

Qual é o perfil das pessoas que são alvo de assédio?

São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a fazê-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilista manipulado. E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos quão impensável é dizer abertamente coisas que não devem aparecer nos relatórios de actividade.

Um único caso de assédio tem um efeito extremamente potente sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher está a ser assediada e vai ser destruída, uma situação de uma total injustiça; ninguém se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que antes. O medo instala-se. Com um único assédio, consegue-se dominar o colectivo de trabalho todo. Por isso, é importante, ao contrário do que se diz, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que são ensinadas, que fazem parte da formação em matéria de assédio, com psicólogos a fazer essa formação.

Uma formação para o assédio?
Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de? matar o seu gato.

Está a descrever um cenário totalmente nazi...
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la ? foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.

Penso que há bastantes empresas que recorrem a este tipo de formação ? muitas empresas cujos quadros, responsáveis de recursos humanos, etc., são ensinados a comportar-se dessa maneira.

Voltando ao perfil do assediado, é perigoso acreditar realmente no seu trabalho?

É. O que vemos é que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, não pode haver inteligência no trabalho sem envolvimento pessoal ? sem um envolvimento total.

Isso gera, aliás, um dilema terrível, nomeadamente em relação aos nossos filhos. As pessoas suicidam-se no trabalho, portanto não podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a nós, que é graças ao trabalho que nos podemos emancipar e realizar-nos pessoalmente. Hoje, vemo-nos obrigados a dizer aos nossos filhos que é preciso trabalhar, mas não muito. É uma mensagem totalmente contraditória.

E os sindicatos?
Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso ? as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.

Como distinguir um suicídio ligado ao trabalho de um suicídio devido a outras causas?

É uma pergunta à qual nem sempre é possível responder. Hoje em dia, não somos capazes de esclarecer todos os suicídios no trabalho. Mas há casos em que é indiscutível que o que está em causa é o trabalho. Quando as pessoas se matam no local de trabalho, não há dúvida de que o trabalho está em causa. Quando o suicídio acontece fora do local de trabalho e a pessoa deixa cartas, um diário, onde explica por que se suicida, também não há dúvidas ? são documentos aterradores. Mas quando as pessoas se suicidam fora do local do trabalho e não deixam uma nota, é muito complicado fazer a distinção. Porém, às vezes é possível. Um caso recente ? e uma das minhas vitórias pessoais ? foi julgado antes do Natal, em Paris. Foi um processo bastante longo contra a Renault por causa do suicídio de vários engenheiros e cientistas altamente qualificados que trabalhavam na concepção dos veículos, num centro de pesquisas da empresa em Guyancourt, perto de Paris.

Quando é que isso aconteceu?
Em 2006-2007. Houve cinco suicídios consecutivos; quatro atiraram-se do topo de umas escadas interiores, do quinto andar, à frente dos colegas, num local com muita passagem à hora do almoço. Mas um deles ? aliás de origem portuguesa ? não se suicidou no local do trabalho. Era muitíssimo utilizado pela Renault nas discussões e negociações sobre novos modelos e produção de peças no Brasil. Foi utilizado, explorado de forma aterradora. Pediam-lhe constantemente para ir ao Brasil e o homem estava exausto por causa da diferença horária. Era uma pessoa totalmente dedicada, tinha mesmo feito coisas sem ninguém lhe pedir, como traduzir documentos técnicos para português, para tentar ganhar o mercado brasileiro para a empresa. A dada altura, teve uma depressão bastante grave e acabou por se suicidar.

A viúva processou a Renault, que em Dezembro acabou por ser condenada por ?falta imperdoável do empregador? [conceito do direito da segurança social em França], por não ter tomado as devidas precauções.
Foi um acontecimento importante porque, pela primeira vez, uma grande multinacional foi condenada em virtude das suas práticas inadmissíveis. Os advogados do trabalho apoiaram-se muito nos resultados científicos do meu laboratório. O acórdão do tribunal tinha 25 páginas e as provas foram consideradas esmagadoras. Havia e-mails onde o engenheiro dizia que já não aguentava mais ? e que a empresa fez desaparecer limpando o disco rígido do seu computador. Mas ele tinha cópias dos documentos no seu computador de casa. A argumentação foi imparável.

Mesmo assim, as empresas continuam a dizer que os suicídios dos seus funcionários têm a ver com a vida privada e não com o trabalho.
Toda a gente tem problemas pessoais. Portanto, quando alguém diz que uma pessoa se suicidou por razões pessoais, não está totalmente errado. Se procurarmos bem, vamos acabar por encontrar, na maioria dos casos, sinais precursores, sinais de fragilidade. Há quem já tenha estado doente, há quem tenha tido episódios depressivos no passado. É preciso fazer uma investigação muito aprofundada.
Mas se a empresa pretender provar que a crise depressiva de uma pessoa se deve a problemas pessoais, vai ter de explicar por que é que, durante 10, 15, 20 anos, essa pessoa, apesar das suas fragilidades, funcionou bem no trabalho e não adoeceu.

Mas como é que o trabalho pode conduzir ao suicídio? Só acontece a pessoas com determinada vulnerabilidade?
Só muito recentemente é que percebi que uma pessoa podia ser levada ao suicídio sem que tivesse até ali apresentado qualquer sinal de vulnerabilidade psicopatológica. Fiquei extremamente surpreendido com um caso em especial, do qual não posso falar muito aqui, porque ainda não foi julgado, de uma mulher que se suicidou na sequência de um assédio no trabalho.
A Polícia Judiciária [francesa] tinha interrogado os seus colegas de trabalho e, como a ordem vinha de um juiz, as pessoas falaram. Foram 40 depoimentos que descreviam a maneira como essa mulher tinha sido tratada pelo patrão (apenas uma contradiz as restantes 39). E o que emerge é que, devido ao assédio, ela caiu num estado psicopatológico muito parecido com um acesso de melancolia.
Ora, o que mais me espantou, quando procurei sinais precursores, é que não encontrei absolutamente nada. E, pela primeira vez, comecei a pensar que, em certas situações, quando uma pessoa que não é melancólica é escolhida como alvo de assédio, é possível fabricar, desencadear, uma verdadeira depressão em tudo igual à melancolia. Quando essa pessoa se vai abaixo, tem uma depressão, autodesvaloriza-se, torna-se pessimista, pensa que não vale nada, que merece realmente morrer.
Era uma mulher hiperbrilhante, muitíssimo apreciada, muito envolvida, imaginativa, produtiva. Tinha duas crianças óptimas e um marido excepcional. Falei com os seus amigos, o marido, a mãe. Não encontrei nenhum sinal precursor, nem sequer na sua infância.

Aconteceu sem pré-aviso?
Houve um período crítico que terá durado um mês. As pessoas à sua volta deram por isso. Viram que ela estava muito mal, o médico do trabalho foi avisado e obrigou-a a parar de trabalhar e pediu a alguém que a levasse para casa. Mas ela não queria parar, insistia que queria fazer o que tinha a fazer. A família também percebeu que algo estava a acontecer, ela consultou um psiquiatra, mas é impossível travar este tipo de descompensação. Foi para casa da mãe, mas quando pensaram que estava a melhorar um pouco, relaxaram a vigilância e ela atirou-se pela janela.
Nos testemunhos recolhidos pela polícia, vê-se claramente que ninguém se atreveu a ajudá-la; todos dizem que tinham medo. Tinham medo do patrão, que era um tirano. Também assediava sexualmente as mulheres e esta mulher era muito bonita. Não consegui saber se tinha havido assédio sexual, mas várias pessoas evocam no seu depoimento que ela terá caído em desgraça porque se tinha recusado a fazer o que ele queria.

O caso da France Télécom foi muito mediático, com 25 suicídios. O suicídio é mais frequente nas grandes empresas?
Não. Nas grandes empresas pode ser mais visível, mas há também muitas pequenas empresas onde as coisas correm muito mal, onde os critérios são incrivelmente arbitrários e onde o assédio pode ser pior. Nas grandes empresas, subsiste por vezes uma presença sindical que faz com que os casos venham a público. Foi assim na France Télécom. Mas não acredito que a destruição actual do mundo do trabalho esteja a acontecer apenas nalgumas grandes multinacionais. E é importante salientar que também há multinacionais onde as coisas correm bem.

Quantas pessoas se suicidam por ano, em França e noutros países?
Não há estatísticas do suicídio no trabalho. Em França, foi constituída uma comissão ministerial onde pela primeira vez foi dito claramente que é urgente aplicar ferramentas que permitam analisar a relação entre suicídio e trabalho. Mas, por enquanto, isso não existe. Nem na Bélgica, nem no Canadá, nem nos Estados Unidos, não existe em sítio nenhum.

Na Suécia, por exemplo, há provavelmente tantos suicídios no trabalho como em França. Mas não há debate. Em muitos países não há debate, porque não existe esse espaço clínico, essa nova medicina do trabalho que estamos a desenvolver em França. De facto, a França é dos sítios onde mais se fala do assunto. O debate francês interessa muita gente, mas também mete muito medo.
Em França, foi feito um único inquérito, há quatro anos, pela Inspecção Médica do Trabalho, em três departamentos [divisões administrativas], passando pelos médicos do trabalho, e chegaram a um total de 50 suicídios em cinco anos. É provavelmente um valor subestimado, mas, extrapolando-o a todos os departamentos, dá entre 300 e 400 suicídios no trabalho por ano.

Falou de ?qualidade total?. O que é exactamente?
É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.

É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu. Há quem escreva artigos todos os dias, mas enfim... é para contar que houve um acidente de viação ou outra coisa qualquer. Uma única entrevista, como esta por exemplo, demora muito mais tempo a escrever e, para fazer as coisas seriamente, vai implicar que o jornalista escreva entretanto menos artigos. Hoje em dia, julga-se os cientistas pelo número de artigos que publicam. Mas isso não reflecte o trabalho do cientista, que talvez esteja a fazer um trabalho difícil e não tenha publicado durante vários anos porque não conseguiu obter resultados.

Passados uns tempos, surgem queixas a dizer que a qualidade [da produção ou do serviço] está a degradar-se. Então, para além das avaliações, os gestores começam a controlar a qualidade e declaram como objectivo a ?qualidade total?. Não conhecem os ofícios, mas vão definir pontos de controlo da qualidade. É verdadeiramente alucinante.

Para além de que declarar a qualidade total é catastrófico, justamente porque a qualidade total é um ideal. É importante ter o ideal da qualidade total, ter o ideal do ?zero-defeitos?, do ?zero-acidentes?, mas apenas como ideal.
Em diabetologia, por exemplo, os gestores introduziram a obrigação de os médicos fazerem, para cada um dos seus doentes, ao longo de três meses, a média dos níveis de hemoglobina glicosilada A1c [ri-se], que é um indicador da concentração de açúcar no sangue. A seguir, comparam entre si os grupos de doentes de cada médico ? é assim que controlam a qualidade dos cuidados médicos. [ri-se].
Só que, na realidade, quando tratamos um doente, às vezes o tratamento não funciona e temos de perceber porquê. E finalmente, o doente acaba por nos confessar que não consegue respeitar o regime alimentar que lhe prescrevemos, porque inclui legumes e não féculas e que os legumes são mais caros... Tem três filhos e não tem dinheiro para legumes. E então, vamos ter de encontrar um compromisso.
Da mesma forma, se um doente diabético é engenheiro e tem de viajar frequentemente para outros fusos horários, torna-se muito difícil controlar a sua glicemia com insulina. Mais uma vez, vai ser preciso encontrar um meio-termo. E isso é difícil.

Mesmo uma central nuclear nunca funciona como previsto. Nunca. Por isso é que precisamos de ?trabalho vivo?. A qualidade total é um contra-senso porque a realidade se encarrega de fazer com que as coisas não funcionem de forma ideal. Mas o gestor não quer ouvir falar disso.
Ora, quando o ideal se transforma na condição para obter uma certificação, o que acontece é que se está a obrigar toda a gente a dissimular o que realmente se passa no trabalho. Deixa de ser possível falar do que não funciona, das dificuldades encontradas. Quando há um incidente numa central nuclear, o melhor é não dizer nada.

Isso é extremamente grave.
É. E em medicina passa-se a mesma coisa. Faz-se batota. Hoje, existem nos hospitais as chamadas ?conferências de consenso? ? acho que existem em toda a Europa ? onde são feitas recomendações precisas para o tratamento de tal ou tal doença. E quando um médico recebe um doente, tem de teclar no computador para ver o que foi estabelecido pela conferência de consenso. O médico, que tem o doente à sua frente, pensa que essa não é a boa abordagem ? porque sabe que o doente tem problemas com a mulher, com os filhos e não vai conseguir fazer o tratamento recomendado. Mas sabe também que se não fizer o que está lá escrito, e se por acaso as coisas derem para o torto, poderá haver um inquérito, a pedido da família ou de um gestor, e vão dizer que foi o médico que não fez o que devia. O problema da qualidade total é que obriga muitos de nós a viver essa experiência atroz que consiste em fazer o nosso trabalho de uma forma que nos envergonha.

Há muitos suicídios entre os médicos?

Cada vez mais. Há especialidades com mais suicídios do que outras ? nomeadamente entre os médicos reanimadores. Em França é uma verdadeira hecatombe: é sabido que a profissão de anestesista-reanimador é das que têm maior taxa de suicídios. Nesta especialidade, os riscos de ser-se atacado em tribunal porque alguém morreu são tão elevados que os médicos se protegem seguindo as instruções. Mesmo que tenham a íntima convicção de que não era isso que deveriam fazer. Chegámos a esse ponto.

É uma situação insuportável e há médicos que não aguentam ver um doente morrer porque tiveram medo de que isso se virasse contra eles. ?Fiz o que estava escrito e o doente morreu. Matei o doente.? Há cada vez mais reanimadores que se confrontam com esta situação. Ainda por cima os cirurgiões atiram sempre as dificuldades que encontram nas operações para cima do reanimador. Sempre. Cada vez que acontece qualquer coisa, é porque o anestesista não adormeceu bem o doente, ou não o acordou correctamente, ou não soube restabelecer a pressão arterial. O cirurgião nunca admitirá que falhou nas suturas e que por isso o doente se esvaiu em sangue.

Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária?
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.

O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.

Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo.

Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.
Então, é preciso acabar com essas práticas?
Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas ? a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra.
Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.
O resultado é desastroso. Não é verdade que a qualidade da produção melhorou. A General Motors foi obrigada a alertar o mundo da má qualidade dos seus pneus; a Toyota teve de trocar um milhão de veículos por veículos novos ou reembolsar os clientes porque descobriu um defeito de fabrico. É essa a qualidade total japonesa?

Hoje, nos hospitais em França, a qualidade do trabalho não aumentou ? diminui. O desempenho supostamente melhorou, mas isso não é verdade, porque não se toma em conta o que está a acontecer do lado do trabalho colectivo.
Temos de aprender a pensar o trabalho colectivo, de desenvolver métodos para o analisar, avaliar ? para o cultivar. A riqueza do trabalho está aí, no trabalho colectivo como cooperação, como maneira de viver juntos. Se conseguirmos salvar isso no trabalho, ficamos com o melhor, aprendemos a respeitar os outros, a evitar a violência, aprendemos a falar, a defender o nosso ponto de vista e a ouvir o dos outros.
Não haverá por detrás desta nova organização do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de redução da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial?

É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.

Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.

Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.
Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo?
Taylor inventou a divisão das tarefas entre as pessoas e a interposição, entre cada tarefa, de uma intervenção da direcção, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obediência ao trabalhador. A palavra-chave é obediência. ?Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, você vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 cêntimos pela sua obediência.? A única coisa que importa é a obediência. O objectivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.
Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicação do taylorismo. Na realidade, não é o progresso tecnológico que determina a transformação das relações sociais, mas a transformação das relações de dominação que abre o caminho a novas tecnologias.
O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produção] utiliza um outro método de dominação, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a inteligência das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que têm de obedecer e outras que mandam.

No ohnismo, trata-se de fazer com que pessoas beneficiem a empresa oferecendo a sua inteligência e os conhecimentos adquiridos através da experiência. Para o fazer, nos anos 1980, introduziu-se algo de totalmente novo: os chamados ?círculos de qualidade?.

O sistema japonês foi realmente uma novidade em relação ao taylorismo, porque ensinou as pessoas a colaborar sem as obrigar a obedecer ? dando-lhes prémios, pelo contrário. Quando uma sugestão de uma pessoa dá lucro, a empresa faz o cálculo do dinheiro que a empresa ganhou com a ideia e reverte para o trabalhador uma parte desse lucro. Trata-se de prémios substanciais.
Mas há uma batota: os círculos de qualidade podiam durar horas, todos os dias, reunindo as pessoas a seguir ao trabalho para alimentar a caixinha das ideias. Todos se envolviam porque, por um lado, uma ideia que permitisse melhorar a produção valia-lhes chorudos prémios, mas também porque quem participava neles tinha um emprego vitalício garantido na empresa.
O sistema foi exportado para a Europa, os EUA, etc. porque durante uns tempos, a qualidade melhorou de facto. Mas a dada altura, as pessoas no Japão trabalhavam tanto que começou a haver mortes por kar?shi [literalmente ?morte por excesso de trabalho?].

O que é o kar?shi?
É uma morte súbita, geralmente por hemorragia cerebral (AVC), de pessoas novas que não apresentam qualquer factor de risco cardiovascular. Não são obesos, não sofrem de hipertensão, não têm níveis de colesterol elevados, não são diabéticos, não fumam, não são alcoólicos, não tem uma história familiar de AVC. Nada. A único factor que é possível detectar é o excesso de trabalho. Estas pessoas trabalham mais de 70 horas por semana, sem contar as horas passadas nos círculos de qualidade. Ou seja, são pessoas que estão literalmente sempre a trabalhar. Mal param de trabalhar, vão dormir. As descrições de colegas que foram fazer inquéritos no Japão são aterrorizadoras.

O mundo do trabalho no Japão é alucinante. Há raparigas que entram nas fábricas de electrónica, por exemplo, e que são utilizadas entre os 18 e os 21 anos ? porque aos 21 anos, já não conseguem aguentar as cadências de trabalho.
As famílias confiam-nas às empresas por esses três anos, durante os quais elas se entregam de corpo e alma ao trabalho. E nalguns casos, a empresa compromete-se a casar a rapariga no fim dos três anos. É mesmo um sistema totalitário. E mais: essas jovens trabalham 12 a 14 horas por dia e depois vão para uns dormitórios onde há uma série de gavetões ? cada um com cama e um colchão ?, deitam-se na cama e fecha-se o gavetão. Dormem assim, empilhadas em gavetões. Três anos? em gavetões? é preciso ver para crer.
Mas uma coisa destas não é aplicável na Europa
Não, pelo menos em França nunca funcionaria. Ainda não chegámos lá, disso tenho a certeza.

Mas acha que poderia acontecer?
Sim, acho que poderíamos lá chegar. Tudo é possível. Mas ao contrário do que se diz, não há uma fatalidade, não é a mundialização que determina as coisas, não é a guerra económica. É perfeitamente possível, no contexto actual, trabalhar de outra maneira, e há empresas que o fazem, com uma verdadeira preocupação de preservar o ?viver juntos?, para tentar encontrar alternativas à abordagem puramente de gestão. O que não impede que a tendência seja para a desestruturação um pouco por todo o lado. É difícil resistir-lhe.

Uma empresa que defendesse os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade conseguiria sobreviver no actual contexto de mercado?

Hoje, estou em condições de responder pela afirmativa, porque tenho trabalhado com algumas empresas assim. Ao contrário do que se pensa, certas empresas e alguns patrões não participam do cinismo geral e pensam que a empresa não é só uma máquina de produzir e de ganhar dinheiro, mas também que há qualquer coisa de nobre na produção, que não pode ser posta de lado. Um exemplo fácil de perceber são os serviços públicos, cuja ética é permitir que os pobres sejam tão bem servidos como os ricos ? que tenham aquecimento, telefone, electricidade. É possível, portanto, trabalhar no sentido da igualdade.
Há também muita gente que acha que produz coisas boas ? os aviões, por exemplo, são coisas belas, são um sucesso tecnológico, podem progredir no sentido da protecção do ambiente. O lucro não é a única preocupação destas pessoas.

E, entre os empresários, há pessoas assim ? não muitas, mas há. Pessoas muito instruídas que respeitam esse aspecto nobre. E, na sequência das histórias de suicídios, alguns desses empresários vieram ter comigo porque queriam repensar a avaliação do desempenho. Comecei a trabalhar com eles e está a dar resultados positivos.
O que fizeram?
Abandonaram a avaliação individual ? aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.

Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produção e não apenas por razões monetárias, mas por questões de bem-estar e convivialidade do consumidor final. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produção e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.
Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperação dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto.
Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organização do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente


Como é que ainda fica espaço para a paixão e para o amor? nos dias de hoje, as relações tendem para este cartoon, que achei fantástico. Feliz dia dos namorados!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/02/social-15.html

Ambiências 53 - 15Dez2009 15:47:00




Depois de meses de interregno volto a este espaço antes do final deste ano para deixar umas imagens da zona de Mpumalanga, África do Sul. Uma zona montanhosa com canyons fantásticos e cascatas majestosas.



Curioso lá, tão longe, haverem as cascatas de Lisboa que fazem jus ao nome que têm.









É impressionante o tempo, essa coisa etérea que escorre inexoravelmente para a frente não dando hipótese de o controlar. Enredamo-nos nesta teia do tempo, com dificuldades para o gerir e para encontrar naquela corrente um tempinho para parar. Mas antes tarde do que nunca, e cá estou outra vez para anunciar que este espaço, parou, mas não morreu!






Aqui, neste lugar, sentimo-nos pequenos, esmagados pela imensidão e grandiosidade das montanhas. À beira do abismo, quase dominando o ar e os céus, sente-se poder. Sente-se que se a Natureza consegue oferecer todo esta maravilha também a nossa capacidade de criar e de conceber não tem limite.


É um misto de sensações, de respeito e pequenez e ao mesmo tempo de poder e de acreditar que tudo é possivel, se quisermos!


Mpumalanga, God's Window, África do Sul, Novembro de 2009

Foto de Francisco Máximo

Com esta fotografia de um lugar mágico, chamado God's Window, brindemos ao novo ano, à vontade, à determinação, ao desejo, aos novos desafios, às novas vidas!



Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/12/ambiencias-53.html

Ambiências 52 - 05Ago2009 11:40:00

Mercado Mandela, Maputo, Moçambique, Julho de 2009

Uma destas semanas fui visitar um mercado informal de Maputo, de seu nome, Mandela. Um daqueles mercados e ambientes onde não é nada usual a presença de mulungos ( brancos ). A atmosfera era inicialmente desconfiada, mas rapidamente se desvaneceram as distancias culturais e houve uma interacção desinteressada e franca.


Mercado Mandela, Maputo, Moçambique, Julho de 2009

Em conversa com as mulheres tive uma grande lição de economia comunitária. A forma como gerem o seu negócio, como se entreajudam e como aplicam as suas poupanças.



Mercado Mandela, Maputo, Moçambique, Julho de 2009



Surpreendeu-me encontrar um grande mercado que parecia um centro comercial de restaurantes, em que a presença de uma mesa era o bastante para o anunciar. A mistura do cheiro da comida, a simpatia das pessoas, as condições precárias das "cozinhas", a luz que se misturava com o fumo do carvão criavam uma atmosfera que convidava a ficar e a tomar uma cerveja.


Os preços eram simbólicos e acessíveis às magras bolsas moçambicanas. O tempo corria devagar e harmónico naquele lugar afastado de intrigas políticas e onde cada um conta pelo que faz e não pelo que tem.
Entretanto, na cidade e no país político discutia-se com indignação o nome escolhido pelo presidente da república para baptizar a ponte que une o norte ao sul de Moçambique, a ponte do rio zambeze, de seu nome, o do próprio presidente. Que original!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/08/ambiencias.html

Intimidades 20 - 24Jun2009 23:40:00


Em Moçambique costuma-se dizer que quem bebe a água do Rovuma, um rio do norte de Moçambique, nunca mais quer de lá sair. Do país, não do rio. Estou de volta à Europa para umas breves férias mas a verdade é que sinto já saudades daquele continente.
Estou tramado, vai ser um desassossego quando um dia tiver que regressar de vez. Terei?... talvez um dia...


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/foto-de-francisco-maximo-cosuma-se.html

Pele 30 - 19Jun2009 09:47:00

Atravessando o canal de Maputo para Inhaca, Moçambique, Setembro de 2008
As estrelas serão as nossas testemunhas. De preferência as que iluminam esses lugares de silêncio sagrado que fazem descobrir a essencia do ser, os desertos.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/pele-30.html

Séries 34 - 16Jun2009 12:57:00

Foto de Alberto Monteiro


Nos últimos tempos fui a dois casamentos. Dizia alguém que não recordo já quem seria, que no casamento é cada vez mais necessário o sexto sentido. Sobretudo depois do quinto divórcio.

Nunca chegarei a essa fase fatigante. Como também alguém já dizia, errar é humano, perseverar no erro é diabolico.
Paz!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/series-33.html

Ambiências 51 - 10Jun2009 15:49:00

Quissanga, Cabo Delgado, Moçambique, Outubro de 2008


Naquele dia ela chorava. Corria-lhe na face uma lágrima fluente que ziguezaguiava nas curvas do seu rosto.

Aquela lágrima não era em vão, era um gota que iria banhar o rio das plenas emoções que cada dia se desenhavam e afirmavam no horizonte. Sim, a vida estava a mudar e para melhor!


Já dizia o Pessoa, ?quando a alma se agiganta a tristeza também canta.?


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/ambiencias-51.html

Séries 33 - 21Mai2009 15:17:00


Corria-lhe no sangue uma vontade louca de amar. Era um desejo profundo do seu corpo. Mas não queria amar por amar, queria amar aquela mulher por quem um dia se tinha apaixonado e por quem tinha dado não só o seu corpo mas também a outra parte imaterial do seu ser.

A mulher por quem se apaixonou, com o tempo, foi-se desmaterializando, perdendo a sombra até deixar de se ver. Esfumou-se no tempo que o enrugou. Ele, continuava à espera todos os dias já com uma esperança murchada e seca.

Os vizinhos viam naquele homem um ser que não tinha sido e que se deixara perder no seu caminho descaminhado e não percebiam porque insistia todos os dias em olhar para o mar. Ele respondia dizendo que a mulher se tinha desmaterializado porque tinha virado sereia e, porque ele não sabia nadar, esperava por ela na margem, onde um dia, naquela rocha, a havia beijado.

Consta que ele também se esfumou e virou lapa. Naquela rocha niguém mais se voltou a sentar nem a beijar.



Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/05/series-33.html

Pele 29 - 13Mai2009 14:04:00

Foto de Alberto Monteiro




And you may find yourself living in a shotgun shack
And you may find yourself in another part of the world
And you may find yourself behind the wheel of a large automobile
And you may find yourself in a beautiful house,
with a beautiful Wife
And you may ask yourself

-well...how did I get here?

Letting the days go by
let the water hold me down
Letting the days go by
water flowing underground
Into the blue again
after the moneys gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

And you may ask yourself
How do I work this?
And you may ask yourself
Where is that large automobile?
And you may tell yourself
This is not my beautiful house!
And you may tell yourself
This is not my beautiful wife!
Same as it ever was...
Same as it ever was...
Same as it ever was...
Same as it ever was...
Water dissolving...and water removing
There is water at the bottom of the ocean
Carry the water at the bottom of the ocean
Remove the water at the bottom of the ocean!

Same as it ever was...
Same as it ever was...
Same as it ever was...
Same as it ever was...




Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/05/pele-29.html

Séries 32 - 23Abr2009 11:26:00

Foto de Paula


O que é a realidade? Dizem alguns cientistas que é o que nos queremos ver. Um jogo de espelhos?

Bom, as divagações à volta de umas garrafas de cerveja, mijam-se, arrotam-se e passam. No entretanto, na sala ao escura ao lado os objectos dançam a seu belo prazer.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/04/series-32.html

Ambiências 50 - 08Abr2009 14:06:00


Cape Town, Africa do Sul, Abril, 2009


Já tinha ouvido bastantes descrições de Cape Town. Todas elas foram insuficientes perante a estranha beleza daquela cidade e arredores. Nem parece África. É uma mistura de modernismo arquitectónico, praias e glamour, montanhas e quintas vinícolas.


Cape Town, Africa do Sul, Abril, 2009
Foto de Francisco Máximo

A cidade parece um grande centro financeiro onde nada está ao acaso. Restaurantes, bares, diversão nocturna, clubes, museus e muita arte e cultura. Fora da cidade, as grandes avenidas marginais serpenteiam a costa com casas luxuosas que se espalham pelos declives até ao mar.

Cape Town, Africa do Sul, Abril, 2009

Foto de Francisco Máximo



Cape Town, Africa do Sul, Abril, 2009

Pelo meio percebe-se que o apartheid deixou marcas profundas na população negra e que ainda hoje os bairros segregados dos trabalhadores sao guetos no meio do luxo e da sumptuosidade de toda aquela região. É estranhamente bela...


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/04/ambiencias-50.html

Séries 31 - 25Mar2009 14:04:00

Foto de Bruno Espadana


Partilho convosco mais uma deliciosa crónica de Mia Couto.

A Crónica de Mia Couto
"Quer dizer, a grande vantagem de estarmos no Poder é que, para sermos empresários, não precisamos de empreender nada. A bem dizer, nem precisamos de empresas."


- Meu querido marido, escutou o noticiário?
- Não. Há novidades importantes?
- Diz o noticiário que você deixou de ser ministro.
- Afinal, eu ainda era ministro?
- Disseram que era. Não sabia?
- Tinha uma vaga ideia. Mas acho que se enganaram, também estes jornalistas divulgam cada coisa, sabe como é: jornalismo preguiçoso...
- Mas aquilo era um comunicado oficial. E disseram claramente o seu nome. Eu não fazia ideia. Pensei que era só empresário.
- Ai é? Saí no noticiário? Mostraram a minha foto?
- Não. Mas, diga-me lá, marido, você era Ministro de quê?
- Ministro dos Assuntos Gerais. Uma coisa assim... Já agora, você reparou se disseram quem era o novo ministro?
- É um dos anteriores vice-ministros.
- Afinal havia mais que um?
- Havia sete vice-ministros.
- Sete? Eh pá, aquilo não era um Ministério, era um Vice-Ministério.
- Fica triste, marido?
- Bom, pá, paciência. Mais importante são os meus cargos nas 15 grandes empresas.
- Ontem, no nosso jantar, você disse que eram 35...
- Minha querida, você escutou mal. Não há, no país inteiro, 35 grandes empresas. Aliás, a maior parte dos empresários de sucesso ainda anda à procura de empresas.
- Não entendo essa matemática.
- É que, no nosso país, há mais empresários que empresas.
- Trinta e cinco... Trinta e cinco são os nossos anos de casados. E estou tão orgulhosa de si, meu ex-ministro, você foi sempre tão ambicioso...
- Ambicioso, não. Ganancioso.
- E qual é a diferença?
- O ambicioso faz coisas. O ganancioso apropria-se das coisas já feitas por outros.
- Você apropriou-se de mim que fui feita por outros.
- Isso é verdade, cara esposa. Uma coisa é verdade: vai-me fazer falta o poder.
- O poder? Não me diga que lhe está faltar o poder, marido?
- Alto lá, falo apenas do poder político. Quer dizer, a grande vantagem de estarmos no Poder é que, para sermos empresários, não precisamos de empreender nada. A bem dizer, nem precisamos de empresas.
- Mas, marido, eu também tenho empresas, você diz que colocou uma data de empresas em meu nome.
- Tem razão, minha querida. Vou usar das minhas influências e pedir para você ser nomeada Ministra.
- Eu, Ministra? Para quê?
- Que é para, a partir da agora, você abrir empresas em meu nome.

Crónica de Mia Couto, escritor moçambicano, publicada na edição de Fevereiro da revista África 21


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/03/series-31.html

Pele 28 - 10Mar2009 14:14:00




Parece que atingimos um ponto em que nao ha sistema politico e economico que resista à gula desmedida da espécie humana. Mais do que crise, parece ser a falencia de todos os sistemas que tem como corolario a globalizaçao da pobreza.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/03/pele.html

Séries 30 - 25Fev2009 08:55:00

Boom Festival, Idanha, Portugal, 2004


Ele era um idealista, ou pensava ser. Tinha sérias dúvidas sobre a sua própria ideologia. Nos momentos de introspecção não tinha resposta convincente se o que o movia era uma moda anarquista e esquerdista de oposição ao sistema vigente se era mesmo uma convicção assumida e profunda. Fosse como fosse, sentia-se atraido pela rebeldia e pelo acto de contestação ao sistema.
Não tinha respostas nem alternativas que de facto o convencessem sobre os caminhos que a sociedade deveria trilhar para sair desta espiral que o liberalismo desenfreado a havia colocado. Sentia sim que este caminho não era o seu. Protestava convictamente em todos os eventos que surgiam por esse mundo fora.

Fosse nas marchas antiglobalização, nas manifestações pelos direitos das minorias e das liberdades sexuais, nas manifestações pela libertacao da palestina, do Tibete e de todas as regiões do planeta onde se oprimia a autodeterminação dos povos, nos movimentos ecologistas e nas mais variadas petições sobre os direitos dos animais. Envolvia-se a troco de nada com toda a espécie de ONG que proliferavam como cogumelos em todos os cantos do mundo, daquelas que so se justificam, alimentam, engordam e beneficiam com a desgraça perpétua dos povos ficando para os desgraçados apenas circo de ocasião para justificar todo um sequito da dita ajuda internacional.

O seu ar e o seu modo de vida integrava-se num esteriotipo destes tempos. Rastas, roupas hippies do sec. XXI, saco de plastico com garrafas de alcool que partilhava com os amigos e, obviamente, drogas, de todo o género em todo o género de festas rave.

Nos cada vez mais escassos momentos lucidos que tinha dava por si a pensar que a sua relação com o alcool e as drogas, que todos os circuitos que percorria faziam dele apenas mais um mainstream neste mundo globalizado. Afinal aquilo que pensava que o distinguia do mainstream, a sua consciencia rebelde e antisistema não passava de mais uma instrumentalização criada pelo proprio sistema para lucrar e se perpetuar.

E com este pensamento deprimente e inquietante deciciu tomar uma atitude: tomou de um trago uma garrafa de vodka barato acompanhado com umas trips. Estava pronto para mais uma batalha.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/02/series-30.html

Ambiências 49 - 17Fev2009 14:25:00

Ilha do Sal, Cabo Verde, 2005



Há dias falava da cultura do "estou à pidir" tão caracteristica do povo moçambicano. Falei e disse que a conclusão não era minha era dos proprios moçambicanos.

Já tinha dados de sobra para concordar com eles, mas este fim-de-semana que passou, se dúvidas ainda houvessem, ficaram todas dissipadas.

Venho de carro numa estrada de terra batida que fazia a ligação entre a estrada nacional que liga Maputo ao Norte e a costa, em Zongoene, bem no meio da Provincia de Gaza e perto de Xai-Xai, a capital.

A estrada rasgava paisagens verdejantes e cheias de água. Campos de arroz, plantações de bananeiras, milho, mangueiras e outras culturas compunham o cenário de uma forma harmoniosa e bela.

De repente, quando conduzia admirando a paisagem e as aldeias que ia atravessando, numa subida, vejo subitamente um moçambicano que vinha de bicicleta em sentido contrário e totalmente fora de mão. Páro imediatamente o carro e nem tenho tempo de buzinar, o dito ciclista que vinha a aproveitar a descida, ao ver o carro, atrapalha-se e vem violentamente embater na frente do carro voando por cima do capot e estatelando-se no meio do chão.

Saio do carro preocupado com o estado de saúde do moçambicano e depressa percebo que está bem apenas com uma pequena ferida superficial no joelho. Entretanto vou ver o estado em que o carro tinha ficado e vejo a grelha e o capot amachucados pela bicicleta e pelo corpo.

Depressa percebo que não há policia a quem me queixar, o dito ciclista nao teria dinheiro para me pagar fosse o que fosse dos estragos e digo-lhe zangado que ele tinha que ter atenção quando andava de bicicleta. Agora eu tinha que arcar com o prejuízo causado pela sua negligência.

Ele olha para mim e sente-se ainda no direito de me pedir dinheiro para tratar do joelho e de outras maleitas que entretanto ja se dispunha a enumerar, sem qualquer tipo de sentimento de culpa ou de responsabilidade pelos seus actos.

Que parasita, Irra!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/02/ambiencias-49.html

Retratos 30 - 13Fev2009 11:18:00


O povo moçambicano é um povo extremamente critico de si próprio. Consideram-se habilidosos na fala e andam sempre a desenvolver esquemas para ver se tiram beneficios com o menor esforço possivel. A cultura do "estou a pidi". A conclusão não é minha, surge das conversas e das conclusões que eles próprios tiram da sua autoanálise.
Neste aspecto o consenso dos moçambicanos parece ser geral. Tudo se critica, mas alguém que se chegue à frente e faça. Nessa altura, os mais altos olham para fora à espera que alguém apoie a causa.


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/02/retratos.html

Social 17 - 29Jan2009 09:52:00

Recebi um texto escrito pelo Mia Couto que não resisto a partilhar.
O "jet-set" moçambicano, por Mia Couto
Já vimos que, em Moçambique, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça. No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set". O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais. O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:

Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça*, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.

Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha**, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.
Cabelo - O nosso jet-setista anda a reboque das modas dos outros. O que vem dos americanos: isso é que é bom. Espreita a MTV e fica deleitado com uns moços cuja única tarefa na vida é fazer de conta que cantam. Os tipos são fantásticos, nesses vídeo-clips: nunca se lhes viu ligação alguma com o trabalho, circulam com viaturas a abarrotar de miúdas descascadas. A vida é fácil para esses meninos. De onde lhes virá o sustento? Pois esses queridos fazem questão em rapar o cabelo à moda militar, para demonstrar a sua agressividade contra um mundo que os excluiu mas que, ao que parece, lhes abriu a porta para uns tantos luxos. E esses andam de cabelo rapado. Por enquanto.
Cerveja - A solidez do nosso matreco vem dos líquidos. O nosso candidato a jet-setista não simplesmente bebe. Ele tem de mostrar que bebe. Parece um reclame publicitário ambulante. Encontramos o nosso matreco de cerveja na mão em casa, na rua, no automóvel, na casa de banho. As obsessões do matreco nacional variam entre o copo e o corpo (os tipos ginasticam-se bem). Vazam copos e enchem os corpos (de musculaças). As garrafas ou latas vazias são deitadas para o meio da rua. Deitar a lata no depósito do lixo é uma coisa demasiado "educadinha". Boa educação é para os pobres. Bons modos são para quem trabalha. Porque a malta da pesada não precisa de maneiras. Precisa de gangs. Respeito? Isso o dinheiro não compra. Antes vale que os outros tenham medo.
Chapéu - É fundamental. Mas o verdadeiro jet-setista não usa chapéu quando todos os outros usam: ao sol. Eis a criatividade do matreco nacional: chapéu, ele usa na sombra, no interior das viaturas e sob o tecto das casas. Deve ser um chapéu que dê nas vistas. Muito aconselhável é o chapéu de cowboy, à la Texana. Para mostrar a familiaridade do nosso matreco com a rudeza dos domadores de cavalos. Com os que põem o planeta na ordem. Na sua ordem.

Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uísque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos. O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se.
Carros - O matreco nacional fica maluquinho com viaturas de luxo. É quase uma tara sexual, uma espécie de droga legalmente autorizada. O carro não é para o nosso jet-setista um instrumento, um objecto. É uma divindade, um meio de afirmação. Se pudesse o matreco levava o automóvel para a cama. E, de facto, o sonho mais erótico do nosso jet-setista não é com uma Mercedes. É, com um Mercedes.
Fatos - Têm de ser de Itália. Para não correr o risco do investimento ser em vão, aconselha-se a usar o casaco com os rótulos de fora, não vá a origem da roupa passar despercebida. Um lencinho pode espreitar do bolso, a sugerir que outras coisas podem de lá sair.
Óculos escuros - Essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça. Essa a razão do chapéu, mesmo na maior obscuridade.
Simplicidade - A simplicidade é um pecado mortal para a nossa matrecagem. Sobretudo, se se é filho de gente grande. Nesse caso, deve-se gastar à larga e mostrar que isso de país pobre é para os outros. Porque eles (os meninos de boas famílias) exibem mais ostentação que os filhos dos verdadeiros ricos dos países verdadeiramente ricos. Afinal, ficamos independentes para quê?
Telemóvel - Ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco, é a sua mais superior extremidade inferior. A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta. Mas importa, sobretudo, que o toque do celular seja audível a mais de 200 metros. Quem disse que o jet-setista não tem relação com a música clássica? Volume no máximo, pelo aparelho passam os mais cultos trechos: Fur Elise de Beethoven, a Rapsódia Húngara de Franz Liszt, o Danúbio Azul de Strauss. No entanto, a melodia mais adequada para as condições higiénicas de Maputo é o Voo do Moscardo.

Última sugestão: nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/01/social.html

Ambiências 48 - 28Jan2009 10:17:00


Maputo em Janeiro é o equivalente a Lisboa em Agosto. Anda tudo parado e nada desenvolve. As empresas praticamente desertas e todos os negocios estao em banho-maria.


Nestas condiçoes resta pouco para fazer que nao seja fazer também pequenas ferias nos fins-de-semana.


Relativamente perto de Maputo encontra-se o Kruger National Park, um parque natural de dimensoes proporcionais ao tamanho da Africa do Sul.



Este parque, célebre em toda a Africa, reune uma enorme variedade de habitats e de espécies selvagens.


Ao fim de um dia a percorrer e explorar a enorme rede de caminhos e estradas que o Parque oferece é possivel ter observado imensas espécies selvagens e, com um pouco de sorte, ver os big five.


Kruger Park, Africa do Sul, Janeiro de 2009
Os big five sao: elefantes, leopardos, rinocerontes, bufalos e leos.


Bem tentei olhar horas e horas para todas as arvores à procura de leopardos mas ainda nao foi desta...


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/01/ambiencias-48.html

Ambiências 47 - 13Jan2009 07:49:00


Porque o mundo é cada vez mais pequeno, tão depressa estamos em Moçambique como em Portugal como em qualquer outra parte do mundo. Depois de Lisboa, dos encontros familiares para celebrar a época da família e dos amigos que mais prezo, uma passagem por Itália, um país que cada vez mais me é familiar. Em Itália, decidiu-se celebrar o novo ano em Veneza, cidade com uma carga romântica especial e com um ambiente, de facto, único no mundo.

Em Veneza, a passagem de ano era subordinada ao tema do amor, ?Love 2009? e consistia basicamente em celebrar a entrada do novo ano com um beijo colectivo na Praça de S. Marcos. Pretendiam os organizadores do evento demonstrar ao mundo que o amor ultrapassa todas as barreiras sociais, credos, cor e raças e que o entendimento entre todos os povos é sempre possível desde que se abra o coração aos outros. Uma forma alternativa de combater a depressão colectiva que de repente e sem aviso se abateu sobre o mundo ocidental.
O conceito agradou-nos, (não fazia sentido celebrar o amor sozinho) e o local parecia o mais apropriado para o efeito e, assim, partimos rumo a Veneza, à Praça de S. Marcos, armados de algumas garrafas de espumante Franciacorta, com o peitos abertos e receptivos à celebração do amor simbolizado num beijo colectivo para iniciar 2009.

Caminhámos por entre as estreitas ruelas de Veneza debaixo de um frio intenso e anormal, aquecidos pelas emoções que carregávamos connosco e pelo tal espumante que já borbulhava dentro dos nossos corpos. As ruas estavam cheias de viajantes vindos de toda a parte e fervilhavam de boa disposição e, claro, não faltavam pequenos bares que serviam de paragens quase obrigatórias para repor o calor dos corpos que se começavam a ressentir da temperatura exterior. Chegados à Praça de S. Marcos, o cenário prometia. Um palco ao fundo e virado para a Basílica de S. Marcos animava as dezenas de milhares de espectadores que iam festejando a ocasião.

Por acaso, ou não, porque estas histórias do acaso tem pano para mangas, e agora, já em Maputo com um calor de inchar, falar em mangas é coisa que me afronta, o acaso, dizia eu, fez com que no exacto momento em que chegámos ao local do evento, subisse ao palco um casal que ia afirmar o tal conceito de que o amor é universal. Ela, moçambicana, de Pemba ? local que nos havia encantado 3 meses antes ? e ele austríaco. A coincidência foi enorme, porque em Pemba, havíamos estado em casa de um austríaco que estava com uma moçambicana para festejar o seu aniversário.

Esta coincidência encheu-nos de alegria e surpresa e ainda hoje não sabemos se seriam eles ou não. O que sabemos é que mesmo numa passagem de ano em Itália a terra onde agora vivemos estava representada e fez-se ouvir.

Chegada a meia-noite, o amor celebrou-se colectivamente com uma intensidade e emoção genuínas. Depois, o tradicional fogo de artifício e, enquanto toda a gente olhava para o ar para apreciar as cores e os efeitos do fogo, começaram a cair flocos do céu. 2009 brindou-nos a todos com neve que começou nessa altura a cair intensamente. Eu, português habituado a climas bem mais temperados, vivi o momento com regozijo. Um regozijo que entretanto deu lugar à estupefacção porque findo o fogo de artifício, o palco apagou-se e a festa para todos aqueles milhares de pessoas, acabou!

Nem queria acreditar que um evento daqueles, naquela ocasião, acabasse no exacto momento em que deveria começar! A alternativa para os milhares de pessoas era a neve, os pequenos bares, as ruas labirínticas ou as banheiras quentes cheias de espuma.

A Itália, como o resto da Europa, andam a viver momentos incaracterísticos e estão a perder qualidades. Cada vez mais parece que já não é o que era!

Bem vindos a Moçambique!


Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/01/ambincias-47.html

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