Retratos 31 - 23Mai2010 22:37:00

Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/retratos-31.html
Social 22 - 12Mai2010 14:43:00

Partilho convosco uma notícia acabada de sair sobre um estudo apresentado ontem, no Porto, no 10º Congresso da Federação Europeia de Sexologia:
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/foto-de-catarina-cruz-partilho-convosco.html
Social 21 - 09Mai2010 23:16:00
Partilho aqui um texto do Mia Couto, a propósito do desencanto com o país que o fez nascer:
Havia um país em que tudo funcionava na base dos dez por cento.
Era o médico: - Mandas-me esse doente e eu pago-te 10%.
Era a criança de rua para um candidato a criança de rua: - Deixo-te guardar carros na minha área e dás-me 10 por cento.
Era o chefe: - Deixo a vossa empresa ganhar o concurso e vocês retribuem com 10 por cento.
Era o polícia: - Estou a telefonar para lembrar aquela multa que perdoei... recorde-se do combinado.
Era o director: - Coloquei-te no projecto como técnico... já sabes, não é?
Era o outro chefe em sussurro para o empresário estrangeiro: - Podem investir no nosso país mas... há comissões, é normal...
Tudo parecia correr bem, no país dos dez por cento. Na aparência, pelo menos... As pessoas trabalhavam a dez por cento, sonhavam nessa percentagem, viviam nessa escassa perspectiva. Tudo a dez por cento.
Mesmo a esperança a ser investida no futuro ocupava apenas uma fracção do coração.
Certo dia, porém, alguém pensou tomar uma iniciativa a 100 por cento. Meu dito, meu feito. O homem arregaçou as mangas e trabalhou.
E logo os amigos, familiares e colegas desataram a rir. Que o esforço seria em vão. Porque, nesse país, o construir era entendido como "comer". E ninguém pode "comer" sozinho. Viria o fiscal e pediria 10 por cento. Viria o camarário e pediria 10% para as licenças. Viria o ministerial e exigiria 10 por cento. Ou mais.
No final, ele acabaria por ficar com menos de 10 por cento das ideias, e do esforço aplicado resultaria quase nada. Que no país dos dez por cento o melhor é não fazer. O melhor é não construir, nem trabalhar. O que é bom e saudável é parasitar os que querem fazer. Sobretudo, os que querem fazer a cem por cento.
E assim, embora aparentando toda a normalidade, o país a dez por cento padecia de uma doença fatal. O problema é que um país a dez por cento só pode ser dez por cento país!
O terceiro mundo está muito mais perto de alguns europeus do que eles próprios imaginam.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/social-20.html
Social 20 - 02Mai2010 22:16:00
Foto de Nuno SousaFonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/05/social-19.html
Social 19 - 25Abr2010 13:30:00
Há dias, em conversa com um amigo moçambicano, de uma geração mais jovem e informada, que trabalha no sector da saúde, dizia-me, para meu espanto e arrepio, que o número de crianças violadas e infectadas com doenças sexualmente transmissíveis que entram todos os dias no Hospital Central de Maputo, é assustador. E explicou-me as causas que dão origem a tão desumana realidade: a crença irracional e ignorante.

Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/04/social-19.html
Ambiências 54 - 14Abr2010 22:32:00

Sem nada para fazer, passeei pela aldeia que entretanto tinha caído em peso à volta do chapa para gozar a novidade do dia. A excitação era geral e aumentou quando viram que no chapa vinham uns molungos (brancos no dialecto changana). As crianças pediam para serem fotografadas, os adultos pediam dinheiro, enfim, um cenário quotidiano que há muito me habituei.
Chegámos ao pôr-do-Sol. À nossa frente uma extensa e fina ponte que deixava circular apenas uma viatura. Uns quilómetros ao fundo, um pequeno pedaço de terra que começava a ganhar definição: A Ilha de Moçambique.
Chegádos à ilha, rapidamente percebemos que esta está dividida em duas zonas, a zona colonial, onde os vestígios de construção colonial estão fortemente presentes e uma outra zona, densamente povoada pelos habitantes locais e onde as palhotas e barracas de tectos de zinco abundam em ruelas sujas e estreitas.
A zona colonial apresenta imensas zonas com casas degradadas, ocupadas por famílias numerosas. A espaços veêm-se casas reabilitadas que deixam adivinhar interiores de tectos altos e divisões espaçosas. As casas aqui tem uma semelhança enorme com as casas senhoriais alentejanas, paredes grossas, caiadas de branco ou em tons ocres, com as faixas de tinta azul ou amarela que rodeiam as janelas e as portas.

Na praça principal, que rodeia a antiga casa do governador, hoje um museu em reabilitação paga por avultados fundos da cooperação portuguesa, existe o típico largo do coreto, sobranceiro ao mar que se encontra a poucos metros.
A ilha está recheada de marcas arquitéctónicas tipicamente portuguesas, igrejas, casas e ruas com marcas do sul de Portugal, o Alentejo. Até os azulejos dos interiores das cozinhas são iguais aos azulejos das casas senhoriais alentejanas com padrões geométricos que criam ilusões ópticas. Os mesmos que vi na minha infância quando ia a Évora passar os natais.

Noutra zona, no cimo de um terraço de uma casa magnífica, agora transformada num simpático e acolhedor restaurante italiano, avista-se numa das ruas principais uma construção imponente mas infelizmente muito degradada: o hospital da Ilha. O aspecto interior faz temer pela saúde dos habitantes da ilha.

Calcorreando as ruelas da ilha cruzamo-nos com uma população maioritariamente muculmana, simpática e hospitaleira. Numa ruela descubro uma madrassa, uma escola muçulmana, onde os meninos desde pequenos aprendem o islão.

A professora convida-me a entrar, explica-me que trabalha com um grupo numeroso de crianças orfãs e assisto a uma demonstação dos meninos. Começam a recitar de cor os textos do Alcorão. Não percebo uma palavra, mas percebo que falam fluentemente, sinal de que a lição está bem aprendida.

E passeando naquelas ruas rapidamente se percebe que o ritmo do tempo é vagaroso, as pessoas pouco têm que fazer e matam o tempo esperando que qualquer coisa surja, qualquer coisa lhes dê motivos para se ocuparem. Parecem de facto ancorados num tempo que flui lentamente, sem sonhos e sem grandes novidades que os animem.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/04/ambiencias-54.html
Social 18 - 14Fev2010 17:28:00

Foto de Francisco Máximo
Nos últimos anos, três ferramentas de gestão estiveram na base de uma transformação radical da maneira como trabalhamos: a avaliação individual do desempenho, a exigência de ?qualidade total? e o outsourcing. O fenómeno gerou doenças mentais ligadas ao trabalho. Christophe Dejours, especialista na matéria, desmonta a espiral de solidão e de desespero que pode levar ao suicídio.
Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção ? uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa, onde, de gravata amarela, cabeleira ?à Beethoven? e olhos risonhos a espreitar por detrás de pequenos óculos de massa redondos, falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal. Não há ?trabalho vivo? sem sofrimento, sem afecto, sem envolvimento pessoal, explicou. É o sofrimento que mobiliza a inteligência e guia a intuição no trabalho, que permite chegar à solução que se procura.
Claro que no outro extremo da escala, nas condições de injustiça ou de assédio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, há um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, à depressão. No seu último livro, publicado há uns meses em França e intitulado Suicide et Travail: Que Faire? , Dejours aborda especificamente a questão do suicídio no trabalho, que se tornou muito mediática com a vaga de suicídios que se verificou recentemente na France Télécom.
Depois da conferência, o médico e cientista falou sobre as causas laborais desses gestos extremos, trágicos e irreversíveis. Mais geralmente, explicou-nos como a destruição pelos gestores dos elos sociais no trabalho nos fragiliza a todos perante a doença mental.
O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo?
Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias ? nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.
No passado, não havia suicídios ligados ao trabalho na indústria. Eram os agricultores que se suicidavam por causa do trabalho ? os assalariados agrícolas e os pequenos proprietários cuja actividade tinha sido destruída pela concorrência das grandes explorações. Ainda há suicídios no mundo agrícola.
O que é que mudou nas empresas?
A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais ? e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: ?O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.?
Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí ? a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua ? acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe?
Mas o assédio no trabalho é novo?
Qual é o perfil das pessoas que são alvo de assédio?
São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a fazê-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilista manipulado. E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos quão impensável é dizer abertamente coisas que não devem aparecer nos relatórios de actividade.
Um único caso de assédio tem um efeito extremamente potente sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher está a ser assediada e vai ser destruída, uma situação de uma total injustiça; ninguém se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que antes. O medo instala-se. Com um único assédio, consegue-se dominar o colectivo de trabalho todo. Por isso, é importante, ao contrário do que se diz, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que são ensinadas, que fazem parte da formação em matéria de assédio, com psicólogos a fazer essa formação.
Uma formação para o assédio?
Está a descrever um cenário totalmente nazi...
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la ? foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.
Penso que há bastantes empresas que recorrem a este tipo de formação ? muitas empresas cujos quadros, responsáveis de recursos humanos, etc., são ensinados a comportar-se dessa maneira.
Voltando ao perfil do assediado, é perigoso acreditar realmente no seu trabalho?
É. O que vemos é que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, não pode haver inteligência no trabalho sem envolvimento pessoal ? sem um envolvimento total.
Isso gera, aliás, um dilema terrível, nomeadamente em relação aos nossos filhos. As pessoas suicidam-se no trabalho, portanto não podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a nós, que é graças ao trabalho que nos podemos emancipar e realizar-nos pessoalmente. Hoje, vemo-nos obrigados a dizer aos nossos filhos que é preciso trabalhar, mas não muito. É uma mensagem totalmente contraditória.
E os sindicatos?
Como distinguir um suicídio ligado ao trabalho de um suicídio devido a outras causas?
É uma pergunta à qual nem sempre é possível responder. Hoje em dia, não somos capazes de esclarecer todos os suicídios no trabalho. Mas há casos em que é indiscutível que o que está em causa é o trabalho. Quando as pessoas se matam no local de trabalho, não há dúvida de que o trabalho está em causa. Quando o suicídio acontece fora do local de trabalho e a pessoa deixa cartas, um diário, onde explica por que se suicida, também não há dúvidas ? são documentos aterradores. Mas quando as pessoas se suicidam fora do local do trabalho e não deixam uma nota, é muito complicado fazer a distinção. Porém, às vezes é possível. Um caso recente ? e uma das minhas vitórias pessoais ? foi julgado antes do Natal, em Paris. Foi um processo bastante longo contra a Renault por causa do suicídio de vários engenheiros e cientistas altamente qualificados que trabalhavam na concepção dos veículos, num centro de pesquisas da empresa em Guyancourt, perto de Paris.
Quando é que isso aconteceu?
A viúva processou a Renault, que em Dezembro acabou por ser condenada por ?falta imperdoável do empregador? [conceito do direito da segurança social em França], por não ter tomado as devidas precauções.
Mesmo assim, as empresas continuam a dizer que os suicídios dos seus funcionários têm a ver com a vida privada e não com o trabalho.
Mas como é que o trabalho pode conduzir ao suicídio? Só acontece a pessoas com determinada vulnerabilidade?
Era uma mulher hiperbrilhante, muitíssimo apreciada, muito envolvida, imaginativa, produtiva. Tinha duas crianças óptimas e um marido excepcional. Falei com os seus amigos, o marido, a mãe. Não encontrei nenhum sinal precursor, nem sequer na sua infância.
Aconteceu sem pré-aviso?
O caso da France Télécom foi muito mediático, com 25 suicídios. O suicídio é mais frequente nas grandes empresas?
Quantas pessoas se suicidam por ano, em França e noutros países?
Na Suécia, por exemplo, há provavelmente tantos suicídios no trabalho como em França. Mas não há debate. Em muitos países não há debate, porque não existe esse espaço clínico, essa nova medicina do trabalho que estamos a desenvolver em França. De facto, a França é dos sítios onde mais se fala do assunto. O debate francês interessa muita gente, mas também mete muito medo.
Em França, foi feito um único inquérito, há quatro anos, pela Inspecção Médica do Trabalho, em três departamentos [divisões administrativas], passando pelos médicos do trabalho, e chegaram a um total de 50 suicídios em cinco anos. É provavelmente um valor subestimado, mas, extrapolando-o a todos os departamentos, dá entre 300 e 400 suicídios no trabalho por ano.
Falou de ?qualidade total?. O que é exactamente?
É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu. Há quem escreva artigos todos os dias, mas enfim... é para contar que houve um acidente de viação ou outra coisa qualquer. Uma única entrevista, como esta por exemplo, demora muito mais tempo a escrever e, para fazer as coisas seriamente, vai implicar que o jornalista escreva entretanto menos artigos. Hoje em dia, julga-se os cientistas pelo número de artigos que publicam. Mas isso não reflecte o trabalho do cientista, que talvez esteja a fazer um trabalho difícil e não tenha publicado durante vários anos porque não conseguiu obter resultados.
Passados uns tempos, surgem queixas a dizer que a qualidade [da produção ou do serviço] está a degradar-se. Então, para além das avaliações, os gestores começam a controlar a qualidade e declaram como objectivo a ?qualidade total?. Não conhecem os ofícios, mas vão definir pontos de controlo da qualidade. É verdadeiramente alucinante.
Para além de que declarar a qualidade total é catastrófico, justamente porque a qualidade total é um ideal. É importante ter o ideal da qualidade total, ter o ideal do ?zero-defeitos?, do ?zero-acidentes?, mas apenas como ideal.
Mesmo uma central nuclear nunca funciona como previsto. Nunca. Por isso é que precisamos de ?trabalho vivo?. A qualidade total é um contra-senso porque a realidade se encarrega de fazer com que as coisas não funcionem de forma ideal. Mas o gestor não quer ouvir falar disso.
Isso é extremamente grave.
Há muitos suicídios entre os médicos?
Cada vez mais. Há especialidades com mais suicídios do que outras ? nomeadamente entre os médicos reanimadores. Em França é uma verdadeira hecatombe: é sabido que a profissão de anestesista-reanimador é das que têm maior taxa de suicídios. Nesta especialidade, os riscos de ser-se atacado em tribunal porque alguém morreu são tão elevados que os médicos se protegem seguindo as instruções. Mesmo que tenham a íntima convicção de que não era isso que deveriam fazer. Chegámos a esse ponto.
É uma situação insuportável e há médicos que não aguentam ver um doente morrer porque tiveram medo de que isso se virasse contra eles. ?Fiz o que estava escrito e o doente morreu. Matei o doente.? Há cada vez mais reanimadores que se confrontam com esta situação. Ainda por cima os cirurgiões atiram sempre as dificuldades que encontram nas operações para cima do reanimador. Sempre. Cada vez que acontece qualquer coisa, é porque o anestesista não adormeceu bem o doente, ou não o acordou correctamente, ou não soube restabelecer a pressão arterial. O cirurgião nunca admitirá que falhou nas suturas e que por isso o doente se esvaiu em sangue.
Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária?
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.
O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.
Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo.
Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.
Hoje, nos hospitais em França, a qualidade do trabalho não aumentou ? diminui. O desempenho supostamente melhorou, mas isso não é verdade, porque não se toma em conta o que está a acontecer do lado do trabalho colectivo.
É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.
Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.
Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.
No ohnismo, trata-se de fazer com que pessoas beneficiem a empresa oferecendo a sua inteligência e os conhecimentos adquiridos através da experiência. Para o fazer, nos anos 1980, introduziu-se algo de totalmente novo: os chamados ?círculos de qualidade?.
O sistema japonês foi realmente uma novidade em relação ao taylorismo, porque ensinou as pessoas a colaborar sem as obrigar a obedecer ? dando-lhes prémios, pelo contrário. Quando uma sugestão de uma pessoa dá lucro, a empresa faz o cálculo do dinheiro que a empresa ganhou com a ideia e reverte para o trabalhador uma parte desse lucro. Trata-se de prémios substanciais.
Mas há uma batota: os círculos de qualidade podiam durar horas, todos os dias, reunindo as pessoas a seguir ao trabalho para alimentar a caixinha das ideias. Todos se envolviam porque, por um lado, uma ideia que permitisse melhorar a produção valia-lhes chorudos prémios, mas também porque quem participava neles tinha um emprego vitalício garantido na empresa.
O sistema foi exportado para a Europa, os EUA, etc. porque durante uns tempos, a qualidade melhorou de facto. Mas a dada altura, as pessoas no Japão trabalhavam tanto que começou a haver mortes por kar?shi [literalmente ?morte por excesso de trabalho?].
O que é o kar?shi?
O mundo do trabalho no Japão é alucinante. Há raparigas que entram nas fábricas de electrónica, por exemplo, e que são utilizadas entre os 18 e os 21 anos ? porque aos 21 anos, já não conseguem aguentar as cadências de trabalho.
As famílias confiam-nas às empresas por esses três anos, durante os quais elas se entregam de corpo e alma ao trabalho. E nalguns casos, a empresa compromete-se a casar a rapariga no fim dos três anos. É mesmo um sistema totalitário. E mais: essas jovens trabalham 12 a 14 horas por dia e depois vão para uns dormitórios onde há uma série de gavetões ? cada um com cama e um colchão ?, deitam-se na cama e fecha-se o gavetão. Dormem assim, empilhadas em gavetões. Três anos? em gavetões? é preciso ver para crer.
Mas uma coisa destas não é aplicável na Europa
Não, pelo menos em França nunca funcionaria. Ainda não chegámos lá, disso tenho a certeza.
Mas acha que poderia acontecer?
Uma empresa que defendesse os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade conseguiria sobreviver no actual contexto de mercado?
Hoje, estou em condições de responder pela afirmativa, porque tenho trabalhado com algumas empresas assim. Ao contrário do que se pensa, certas empresas e alguns patrões não participam do cinismo geral e pensam que a empresa não é só uma máquina de produzir e de ganhar dinheiro, mas também que há qualquer coisa de nobre na produção, que não pode ser posta de lado. Um exemplo fácil de perceber são os serviços públicos, cuja ética é permitir que os pobres sejam tão bem servidos como os ricos ? que tenham aquecimento, telefone, electricidade. É possível, portanto, trabalhar no sentido da igualdade.
Há também muita gente que acha que produz coisas boas ? os aviões, por exemplo, são coisas belas, são um sucesso tecnológico, podem progredir no sentido da protecção do ambiente. O lucro não é a única preocupação destas pessoas.
E, entre os empresários, há pessoas assim ? não muitas, mas há. Pessoas muito instruídas que respeitam esse aspecto nobre. E, na sequência das histórias de suicídios, alguns desses empresários vieram ter comigo porque queriam repensar a avaliação do desempenho. Comecei a trabalhar com eles e está a dar resultados positivos.
Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produção e não apenas por razões monetárias, mas por questões de bem-estar e convivialidade do consumidor final. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produção e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.
Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperação dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto.
Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organização do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente
Como é que ainda fica espaço para a paixão e para o amor? nos dias de hoje, as relações tendem para este cartoon, que achei fantástico. Feliz dia dos namorados!
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2010/02/social-15.html
Ambiências 53 - 15Dez2009 15:47:00
Curioso lá, tão longe, haverem as cascatas de Lisboa que fazem jus ao nome que têm.
É um misto de sensações, de respeito e pequenez e ao mesmo tempo de poder e de acreditar que tudo é possivel, se quisermos!

Com esta fotografia de um lugar mágico, chamado God's Window, brindemos ao novo ano, à vontade, à determinação, ao desejo, aos novos desafios, às novas vidas!
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/12/ambiencias-53.html
Ambiências 52 - 05Ago2009 11:40:00

Uma destas semanas fui visitar um mercado informal de Maputo, de seu nome, Mandela. Um daqueles mercados e ambientes onde não é nada usual a presença de mulungos ( brancos ). A atmosfera era inicialmente desconfiada, mas rapidamente se desvaneceram as distancias culturais e houve uma interacção desinteressada e franca.

Em conversa com as mulheres tive uma grande lição de economia comunitária. A forma como gerem o seu negócio, como se entreajudam e como aplicam as suas poupanças.
Os preços eram simbólicos e acessíveis às magras bolsas moçambicanas. O tempo corria devagar e harmónico naquele lugar afastado de intrigas políticas e onde cada um conta pelo que faz e não pelo que tem.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/08/ambiencias.html
Intimidades 20 - 24Jun2009 23:40:00
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/foto-de-francisco-maximo-cosuma-se.html
Pele 30 - 19Jun2009 09:47:00
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/pele-30.html
Séries 34 - 16Jun2009 12:57:00

Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/series-33.html
Ambiências 51 - 10Jun2009 15:49:00

Aquela lágrima não era em vão, era um gota que iria banhar o rio das plenas emoções que cada dia se desenhavam e afirmavam no horizonte. Sim, a vida estava a mudar e para melhor!
Já dizia o Pessoa, ?quando a alma se agiganta a tristeza também canta.?
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/06/ambiencias-51.html
Séries 33 - 21Mai2009 15:17:00
Corria-lhe no sangue uma vontade louca de amar. Era um desejo profundo do seu corpo. Mas não queria amar por amar, queria amar aquela mulher por quem um dia se tinha apaixonado e por quem tinha dado não só o seu corpo mas também a outra parte imaterial do seu ser.
A mulher por quem se apaixonou, com o tempo, foi-se desmaterializando, perdendo a sombra até deixar de se ver. Esfumou-se no tempo que o enrugou. Ele, continuava à espera todos os dias já com uma esperança murchada e seca.
Os vizinhos viam naquele homem um ser que não tinha sido e que se deixara perder no seu caminho descaminhado e não percebiam porque insistia todos os dias em olhar para o mar. Ele respondia dizendo que a mulher se tinha desmaterializado porque tinha virado sereia e, porque ele não sabia nadar, esperava por ela na margem, onde um dia, naquela rocha, a havia beijado.
Consta que ele também se esfumou e virou lapa. Naquela rocha niguém mais se voltou a sentar nem a beijar.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/05/series-33.html
Pele 29 - 13Mai2009 14:04:00

Same as it ever was...
Same as it ever was...
Same as it ever was...
Same as it ever was...
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/05/pele-29.html
Séries 32 - 23Abr2009 11:26:00

Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/04/series-32.html
Ambiências 50 - 08Abr2009 14:06:00
Foto de Francisco Máximo
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/04/ambiencias-50.html
Séries 31 - 25Mar2009 14:04:00

Partilho convosco mais uma deliciosa crónica de Mia Couto.
A Crónica de Mia Couto
"Quer dizer, a grande vantagem de estarmos no Poder é que, para sermos empresários, não precisamos de empreender nada. A bem dizer, nem precisamos de empresas."
- Meu querido marido, escutou o noticiário?
- Não. Há novidades importantes?
- Diz o noticiário que você deixou de ser ministro.
- Afinal, eu ainda era ministro?
- Disseram que era. Não sabia?
- Tinha uma vaga ideia. Mas acho que se enganaram, também estes jornalistas divulgam cada coisa, sabe como é: jornalismo preguiçoso...
- Mas aquilo era um comunicado oficial. E disseram claramente o seu nome. Eu não fazia ideia. Pensei que era só empresário.
- Ai é? Saí no noticiário? Mostraram a minha foto?
- Não. Mas, diga-me lá, marido, você era Ministro de quê?
- Ministro dos Assuntos Gerais. Uma coisa assim... Já agora, você reparou se disseram quem era o novo ministro?
- É um dos anteriores vice-ministros.
- Afinal havia mais que um?
- Havia sete vice-ministros.
- Sete? Eh pá, aquilo não era um Ministério, era um Vice-Ministério.
- Fica triste, marido?
- Bom, pá, paciência. Mais importante são os meus cargos nas 15 grandes empresas.
- Ontem, no nosso jantar, você disse que eram 35...
- Minha querida, você escutou mal. Não há, no país inteiro, 35 grandes empresas. Aliás, a maior parte dos empresários de sucesso ainda anda à procura de empresas.
- Não entendo essa matemática.
- É que, no nosso país, há mais empresários que empresas.
- Trinta e cinco... Trinta e cinco são os nossos anos de casados. E estou tão orgulhosa de si, meu ex-ministro, você foi sempre tão ambicioso...
- Ambicioso, não. Ganancioso.
- E qual é a diferença?
- O ambicioso faz coisas. O ganancioso apropria-se das coisas já feitas por outros.
- Você apropriou-se de mim que fui feita por outros.
- Isso é verdade, cara esposa. Uma coisa é verdade: vai-me fazer falta o poder.
- O poder? Não me diga que lhe está faltar o poder, marido?
- Alto lá, falo apenas do poder político. Quer dizer, a grande vantagem de estarmos no Poder é que, para sermos empresários, não precisamos de empreender nada. A bem dizer, nem precisamos de empresas.
- Mas, marido, eu também tenho empresas, você diz que colocou uma data de empresas em meu nome.
- Tem razão, minha querida. Vou usar das minhas influências e pedir para você ser nomeada Ministra.
- Eu, Ministra? Para quê?
- Que é para, a partir da agora, você abrir empresas em meu nome.
Crónica de Mia Couto, escritor moçambicano, publicada na edição de Fevereiro da revista África 21
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/03/series-31.html
Pele 28 - 10Mar2009 14:14:00
Parece que atingimos um ponto em que nao ha sistema politico e economico que resista à gula desmedida da espécie humana. Mais do que crise, parece ser a falencia de todos os sistemas que tem como corolario a globalizaçao da pobreza.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/03/pele.html
Séries 30 - 25Fev2009 08:55:00
Fosse nas marchas antiglobalização, nas manifestações pelos direitos das minorias e das liberdades sexuais, nas manifestações pela libertacao da palestina, do Tibete e de todas as regiões do planeta onde se oprimia a autodeterminação dos povos, nos movimentos ecologistas e nas mais variadas petições sobre os direitos dos animais. Envolvia-se a troco de nada com toda a espécie de ONG que proliferavam como cogumelos em todos os cantos do mundo, daquelas que so se justificam, alimentam, engordam e beneficiam com a desgraça perpétua dos povos ficando para os desgraçados apenas circo de ocasião para justificar todo um sequito da dita ajuda internacional.
O seu ar e o seu modo de vida integrava-se num esteriotipo destes tempos. Rastas, roupas hippies do sec. XXI, saco de plastico com garrafas de alcool que partilhava com os amigos e, obviamente, drogas, de todo o género em todo o género de festas rave.
Nos cada vez mais escassos momentos lucidos que tinha dava por si a pensar que a sua relação com o alcool e as drogas, que todos os circuitos que percorria faziam dele apenas mais um mainstream neste mundo globalizado. Afinal aquilo que pensava que o distinguia do mainstream, a sua consciencia rebelde e antisistema não passava de mais uma instrumentalização criada pelo proprio sistema para lucrar e se perpetuar.
E com este pensamento deprimente e inquietante deciciu tomar uma atitude: tomou de um trago uma garrafa de vodka barato acompanhado com umas trips. Estava pronto para mais uma batalha.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/02/series-30.html
Ambiências 49 - 17Fev2009 14:25:00
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/02/ambiencias-49.html
Retratos 30 - 13Fev2009 11:18:00
O povo moçambicano é um povo extremamente critico de si próprio. Consideram-se habilidosos na fala e andam sempre a desenvolver esquemas para ver se tiram beneficios com o menor esforço possivel. A cultura do "estou a pidi". A conclusão não é minha, surge das conversas e das conclusões que eles próprios tiram da sua autoanálise.
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/02/retratos.html
Social 17 - 29Jan2009 09:52:00
Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça*, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.
Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha**, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.
Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uísque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos. O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se.
Última sugestão: nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/01/social.html
Ambiências 48 - 28Jan2009 10:17:00
Maputo em Janeiro é o equivalente a Lisboa em Agosto. Anda tudo parado e nada desenvolve. As empresas praticamente desertas e todos os negocios estao em banho-maria.
Bem tentei olhar horas e horas para todas as arvores à procura de leopardos mas ainda nao foi desta...
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/01/ambiencias-48.html
Ambiências 47 - 13Jan2009 07:49:00
Em Veneza, a passagem de ano era subordinada ao tema do amor, ?Love 2009? e consistia basicamente em celebrar a entrada do novo ano com um beijo colectivo na Praça de S. Marcos. Pretendiam os organizadores do evento demonstrar ao mundo que o amor ultrapassa todas as barreiras sociais, credos, cor e raças e que o entendimento entre todos os povos é sempre possível desde que se abra o coração aos outros. Uma forma alternativa de combater a depressão colectiva que de repente e sem aviso se abateu sobre o mundo ocidental.
O conceito agradou-nos, (não fazia sentido celebrar o amor sozinho) e o local parecia o mais apropriado para o efeito e, assim, partimos rumo a Veneza, à Praça de S. Marcos, armados de algumas garrafas de espumante Franciacorta, com o peitos abertos e receptivos à celebração do amor simbolizado num beijo colectivo para iniciar 2009.
Caminhámos por entre as estreitas ruelas de Veneza debaixo de um frio intenso e anormal, aquecidos pelas emoções que carregávamos connosco e pelo tal espumante que já borbulhava dentro dos nossos corpos. As ruas estavam cheias de viajantes vindos de toda a parte e fervilhavam de boa disposição e, claro, não faltavam pequenos bares que serviam de paragens quase obrigatórias para repor o calor dos corpos que se começavam a ressentir da temperatura exterior. Chegados à Praça de S. Marcos, o cenário prometia. Um palco ao fundo e virado para a Basílica de S. Marcos animava as dezenas de milhares de espectadores que iam festejando a ocasião.
Por acaso, ou não, porque estas histórias do acaso tem pano para mangas, e agora, já em Maputo com um calor de inchar, falar em mangas é coisa que me afronta, o acaso, dizia eu, fez com que no exacto momento em que chegámos ao local do evento, subisse ao palco um casal que ia afirmar o tal conceito de que o amor é universal. Ela, moçambicana, de Pemba ? local que nos havia encantado 3 meses antes ? e ele austríaco. A coincidência foi enorme, porque em Pemba, havíamos estado em casa de um austríaco que estava com uma moçambicana para festejar o seu aniversário.
Esta coincidência encheu-nos de alegria e surpresa e ainda hoje não sabemos se seriam eles ou não. O que sabemos é que mesmo numa passagem de ano em Itália a terra onde agora vivemos estava representada e fez-se ouvir.
Chegada a meia-noite, o amor celebrou-se colectivamente com uma intensidade e emoção genuínas. Depois, o tradicional fogo de artifício e, enquanto toda a gente olhava para o ar para apreciar as cores e os efeitos do fogo, começaram a cair flocos do céu. 2009 brindou-nos a todos com neve que começou nessa altura a cair intensamente. Eu, português habituado a climas bem mais temperados, vivi o momento com regozijo. Um regozijo que entretanto deu lugar à estupefacção porque findo o fogo de artifício, o palco apagou-se e a festa para todos aqueles milhares de pessoas, acabou!
Nem queria acreditar que um evento daqueles, naquela ocasião, acabasse no exacto momento em que deveria começar! A alternativa para os milhares de pessoas era a neve, os pequenos bares, as ruas labirínticas ou as banheiras quentes cheias de espuma.
A Itália, como o resto da Europa, andam a viver momentos incaracterísticos e estão a perder qualidades. Cada vez mais parece que já não é o que era!
Bem vindos a Moçambique!
Fonte: http://blografiascomluz.blogspot.com/2009/01/ambincias-47.html




















